Se a vida é um ciclo, penso que eu achei o lugar onde ele se fecha exatamente no mesmo ponto. Pelo menos para alguns. A Funerária São Francisco, em Curitiba, é a mais antiga em funcionamento na capital. O negócio da morte foi instalado no mesmo prédio que abrigou o passado uma maternidade. Coincidência? Talvez… A razão explica, mas será que dá conta de toda a magia de um prédio que iniciou a jornada e selou o fim de diversos curitibanos? Lenda ou não, o dono do local afirma que já fez o enterro de gente que teve o parto realizado no mesmo prédio.
São coisas de Curitiba, cidade que faz a gente até gostar do friozinho, do céu cinza, ao mesmo tempo que desvia do vizinho para não ter que dar bom-dia. A funerária São Francisco não nos deixa esquecer que “do pó viemos e ao pó retornaremos”. Como sinal deste destino acolhedor e ameaçador, uma argola de metal que ainda hoje está fixa no meio-fio em frente ao estabelecimento. No passado, os cavalos eram amarrados ali. Com todo o crescimento da cidade, a argolinha parece ter ficado esquecida no chão. Ou nós fizemos questão de deixá-la no seu lugar. É um lembrete de que sempre seremos esta terra de gente sisuda, fechada e de poucas palavras. Temente do destino, seguros que encontraremos o nosso último destino exatamente onde tudo começou. É o choro do bebê misturado com o suspiro cansado do velho. O fim e o princípio se encontrando no mesmo lugar.
Abaixo segue o link da reportagem sobre a maternidade que virou funerária. A dica valiosa foi da amiga Lina Faria, fotógrafa atenta aos movimentos da cidade, que me concedeu uma entrevista alguns dias antes. A matéria foi ao ar no dia 22 de maio de 2009 no RIC Notícias segunda edição, na RICTV, o canal Record no Paraná. As imagens são do cinegrafista e bom amigo Ricardo Costa.
Conheci a Lina Faria em 2006, quando fomos premiados no projeto de Registro do Patrimônio Imaterial de Curitiba. Ela desenvolvia um trabalho de registro do centro da capital paranaense com seu aguçado olhar fotográfico. Eu estava em busca do circo perdido, escrevendo sobre a história da família Queirolo, o que resultou no livro “O Circo e a Cidade”. Vendo a empolgação da Lina, aos poucos fui percebendo que no fundo a gente estava tratando do mesmo assunto: decifrar a Curitiba que tanto admiramos. Ela, com as lentes. Eu, com as palavras.
Outro dia gravamos uma reportagem com ela. Digo “com” já que por vezes, principalmente quando o personagem é cativante, eu como repórter me sinto guiado. Não escrevo, sinto com fosse traduzido pelo olhar do outro. Assim foi com a Lina. Um belo encontro na cidade.
Abaixo o link da reportagem que foi ao ar no RIC Notícias 2ª edição em 16 de maio de 2009.
Era possível até mesmo ver o brilho do chão onde estavam os carros. Em uma prateleira lateral, pastas organizadas tal qual um sistemático professor faria em seu gabinete. Andando por entre os veículos desmontados, surge Joarez em seu impecável guarda-pó branco. O cumprimento é afetuoso e extremamente cordial, um convite para conhecer o que em nada parece uma oficina mecânica. As pastas, azuis, guardam manuais e instruções técnicas de carros que ele conserta há mais de vinte anos.
Até esbocei procurar pelas paredes um pôster de mulher pelada, tal como encontraria na concorrência, para me certificar do local onde estava. Mas logo, assim que soube do sobrenome da figura que estava a minha frente, desisti: Sofiste, quase uma corruptela dada gratuitamente pela sua linhagem familiar, aproximando-o do grego Sophia, sabedoria para nós. Como que predestinado, Joarez nasceu com um pulguinha atrás da orelha sobre questões que muitos de nós até deixam passar. A vida não lhe trazia respostas fáceis, pelo contrário, cada vez mais parecia lhe oferecer perguntas mais difíceis. Joarez não se intimidou, se lançou na escuridão das dúvidas, peito aberto, procurando um caminho de lucidez que o levasse para longe da superficialidade.
Mas a vida não foi só de questionamentos e buscas metafísicas. O mecânico pegou no pesado desde cedo. Filho de caminhoneiro, tirou o sustento na boléia viajando por boa parte do Brasil. Enrijeceu os músculos descarregando sacas de algodão por aí. Até que um dia, o qual não lhe sai da memória, na estrada viu um grupo de estudantes de pastinha embaixo do braço:
- Eu senti inveja deles. Mas veja só: um homem que sente inveja de um estudante não pode estar atrás do volante de um caminhão!
Foi o insight definitivo, a maçã de Isaac Newton que lhe era atirada à cabeça naquela que seria uma de suas últimas viagens. Procurou então ocupações que lhe permitissem dedicar mais horas aos livros, tão prazerosas leituras em companhia de gente como Sócrates, Platão, Emerson, Nietzche, Descartes… Aquela angústia das dúvidas sem bálsamo parecia apontar para algumas soluções. Ou ao menos, para um caminho mais leve, consciente, pleno… O filósofo de nascença Sofiste agora se reconhecia como tal. A busca pelas respostas para o que via pelo mundo lhe dava uma chave para entrar em si mesmo. A partir de então, Joarez podia andar por onde quer que fosse, poderia ter a profissão que lhe conviesse ou lhe fosse permitida no momento, mas seria para sempre um companheiro de Sophia.
E foi com esta certeza de ter o conhecimento sempre presente em qualquer ato que esboçasse que Joarez aprendeu a arte da mecânica. Montou oficina própria e fez tudo do seu jeito. Como o poder de quem organiza o que temos de mais abstrato, que é o pensamento, decidiu que podia fazer um pátio de trabalho tão organizado quanto limpo. Quase não se vê graxa pela chão ou pelos uniformes dos quinze funcionários. Na entrada do local mantém um cartaz com os princípios éticos que norteiam o estabelecimento. Sim, a ética saiu dos tratados filosóficos e se fez rotina na oficina do Joarez. Afinal, o que seria da Filosofia senão uma Ciência para elevar o espírito dos Homens na prática do trabalho diário? Assim postula o mecânico com ar de professor, conhecedor das ferramentas dos carros e da vida. Joarez resume boa parte do que traz em seu livro de duzentas e tantas páginas na metáfora da bolinha de tênis, que acompanha cada exemplar vendido de “A Problemática do Homem: A Chave Para o Autoconhecimento”. Um pensamento é como uma bolinha lançada, afirma ele. Nós o jogamos para o universo e ele vai nos rebater, junto com outros pensamentos afins e voltar ainda maior para a gente. É a Lei da causalidade, diz o mecânico filósofo, que pouco a pouco faz esta idéia crescer a olhos vistos.
O filósofo não esquece das origens e tampouco distancia a prática literária da labuta diária na oficina. A quem adquire o livro, faz uma dedicatória assinada duas vezes: uma, com a rubrica “Jsofiste”; a outra, talvez a mais significativa, é um carimbo do dedo polegar cuidadosamente manchado de graxa. Uma discreta ironia, reveladora e elegante. Tal como o guarda-pó branco que reluz na oficina mecânica.
Luiz Andrioli
* Para quem quiser conhecer o trabalho do Joarez como filósofo, ele tem um site. O endereço é o http://www.joarezsofiste.com.br/ . Neste endereço dá para se informar sobre como adquirir o livro. Também aconselho, para os donos de veículos em Curitiba e região, a pensar seriamente no filósofo como sendo o mecânico de confiança… A oficina é organizadinha de verdade, fiquei impressionado. Acredito que isso reflita na qualidade do trabalho.
* No link abaixo, a reportagem que fizemos com o Joarez Sofiste para o RIC Notícias 2ª edição de 15 de maio de 2009, na RICTV, o canal Record no Paraná.
Lanço no próximo dia 03 de abril de 2009, sexta-feira, 19h, aqui em Curitiba, o meu primeiro romance infanto-juvenil, A menina do Circo. É uma história que me toca muito. Ela foi escrita há dez anos e estava quietinha na gaveta, até que o bom amigo Geraldo Almeida, da Pró-infanti Editora, achou que era hora da menina, de fato, nascer.
Em uma década a gente muda muito. Eu escrevi a história com 21 anos, ainda estudante de jornalismo, ator, cabelo comprido, completamente imerso no mundo circense que acabar de descobrir… Procurei, na “tirada de pó” do texto por conta da publicação, não mexer muito no que escrevi na época. Acho que o livro deve sempre manter seu espírito original. Gosto do que vivi, do que escrevi e tudo isso me fez ser um pouquinho do que me apresento hoje. Enfim, continuo apaixonado pela menina do circo.
Quem estiver em Curitiba na data do lançamento e puder me presentear com a presença, ganha a costumeira bitoca no nariz. Se quiser ler um trecho da história, coloca e aperta o seu dedinho aqui. Já para os colegas da imprensa, hoje tem espetáculo sim-sinhô: O release está aqui.
Serviço
Lançamento
A menina do Circo - dia 03/04/2009 (sexta-feira), 19h.
Livrarias Curitiba, Park Shopping Barigüí
Rua Pedro Viriato Parigot de Souza, 600 - Ecoville - Curitiba - Pr
Conseguiu que a chefia da metalúrgica lhe desse folga no sábado. Carnaval, oficialmente, não é feriado. Todo ano era a mesma negociação. Patrão que não lhe liberasse corria o risco de começar a quarta-feira de cinzas colocando anúncio no jornal procurando soldador. Cinqüenta e sete anos, há uns trinta e poucos que pulava de emprego em emprego, sem se importar com a rotatividade. Casado duas vezes, separou-se das duas. Agora só de enrosco com uma dona aí que passava a cada quinze dias por Curitiba. Carioca ela, não entendia como que um autêntico representante da terra das araucárias podia ter tanto gosto por carnaval.
Acordou dez da manhã. Três horas a mais de sono lhe fariam bem, poderiam até deixar os passos mais leves durante o desfile, previsto para perto da virada da noite.Ainda antes da água do café esquentar, ouviu o chio da latinha de cerveja abrindo, a primeira do dia. Mas não foram muitas, ele gostava da gelada só no começo da festa. Com o avançar das horas, preferia a praticidade dos tiros seco de vermuth com vodka. Colocou no toca fita o samba enredo da escola e tirou da geladeira meio quilo de lingüiça. Era dia de festa, do rosto caía o suor na brasa da churrasqueira, mais forte a cada abanada com a tampa do pote de plástico. Que pena a dona do Rio de Janeiro não estivar por aqui hoje. Passou o terno branco da escola de samba na mesinha da sala. Com a toalhinha deu o último brilho no sapato. Ah, era bem capaz da dona convidá-lo para viajar para o Rio de Janeiro se o visse naquela roupa lustrosa! E ele iria, claro. A dona era de pagar tudo… Como recusar? Mas que fosse em outro dia. Carnaval, para o mestre sala da Unidos do Bairro Alto, era só o de Curitiba.
A cidade corria por ele no ritmo das pedaladas. Pouco mais de dez quilômetros de casa até a passarela do samba curitibano. Não era dia para pressa, deixava os prédios, carros e casas passarem lentamente por ele. Ciclista do samba, dobrou a barra da calça para não sujar com a graxa da correia. A cidade atravessava seu corpo, ébrio também pelo desejo de se ver pulsando no ritmo da bateria.
Na avenida, palco pronto para o espetáculo de logo mais, desceu da bicicleta e caminhou com ela devagar pela calçada. Respeito igual a tirar o chapéu frente a uma autoridade. Contemplou o asfalto, as arquibancadas ainda um pouco vazias, a garoa leve que só se via na contraluz do poste, o cheiro do bacon estalando com a pipoca, um cachorro que nem se atrevia a latir… Pediu para deixar a bicicleta ao lado do carrinho da maçã do amor. “Tem tranca, não, meu senhor, ninguém vai roubar, só dá uma olhadinha, sem compromisso… Hoje é carnaval!”, foi o que disse com a autoridade de um mestre sala.
Fez da avenida o seu mais íntimo lugar. Dos cento e sessenta e sete integrantes da escola, era o único que trazia a cidade no sorriso. A destreza que mostrava durante todo o ano no ferro de solda, carregava também naqueles vinte e poucos minutos para um corpo que tamborilava no asfalto. Sentia que a avenida elevava o seu corpo, deixava-o da altura dos postes, do porte dos carros alegóricos, com a força da bateria, com a garra dos puxadores do samba enredo. A noite era dele, só dele. Ah, a dona carioca tinha que estar ali na arquibancada. Ela aplaudiria ainda mais forte que os outros, pensou.
Bêbado de alegria, saiu da passarela direito para a bicicleta. Não queria dividir com mais ninguém aquela alegria. Era dono de sua própria euforia e com ela voltaria para casa, guardaria em uma caixa, se preciso fosse. Queria fazer com que aquele brilho dos vinte minutos durasse o máximo possível, se possível, até o próximo carnaval. Encontrou a bicicleta jogada no chão, quem ficara de dar uma olhadinha mal o fez. Talvez uma ré mal dada por algum motorista explicasse a roda torta. Não tinha problemas, ainda agüentaria levá-lo até em casa.Parou para dobrar a barra da calça, sentou no memorial em frente ao Palácio do Governo. Deixou-se deitar levado pelo peso da noite. A garoa cessara, ficaram apenas as estrelas e o batuque das outras escolas. Cada compasso fazia do mestre sala algo mais parecido com um anjo, dormindo, como testemunha as costas da multidão que só tinha olhos para a avenida. Se a dona carioca o visse ali, é certo que não o acordaria. Naquele sono pleno, repousava o carnaval de Curitiba.
O nome de verdade daquela igreja ali no bairro Bigorrilho, em Curitiba, ninguém lembra mais. Nossa Senhora das Dores, algo assim. Dor mesmo, hoje em dia, só a do padre. Nome de anjo, Gabriel, sobrenome que beira a graça, Figura. E é uma figura mesmo. Fala para um como se fizesse sermão para centenas. Há dez anos assumiu a igreja dos Passarinhos, em Curitiba. Desde que foi colocado no posto, fez questão de manter a tradição de décadas de um dos templos católicos mais conhecidos de Curitiba. No passado, dezenas de pássaros ficavam soltos dentro da igreja, uma cantoria que dava gosto. Tinha até tucano. Mas chegaram os tempos em que o politicamente correto deixou de ser laico e deu seus pitacos também na ninharada católica da capital paranaense. Para não contrariar a lei, as aves exóticas deram espaço para apenas alguns canários dentro de gaiolas penduradas no altar. E é aí que começa a história.
Era sábado, por volta de meio-dia, quando o padre e a secretária saíram para almoçar. O templo ficou só, na paz de Deus, de portas abertas, como sempre. E lá se deixa porta de igreja fechada de dia? O que seriam dos parentes dos internados de um hospital próximo? Onde fariam as orações pelos seus entes? Foram só vinte minutos para alguém ir até o altar, subir na cadeira e roubar uma das gaiolas – a do meio – que abrigava um canário belga alaranjado. “Nunca se viu canto tão lindo”, diz o padre. “Os dois companheiros dele até que são afinadinhos, mas nada que se compare. E agora, sem o laranjinha, estão numa tristeza que só vendo”. Para quem violou a casa de Deus e infringiu o sétimo mandamento, o padre responde com o perdão do Pai Nosso. O religioso diz que perdoa quem roubou o canarinho, só pede que cuide bem para que ao menos o canto seja preservado, mesmo que longe da igreja dos passarinhos.
Se fosse novidade isso de roubar bicho com asa da igreja, ainda vá lá. Mas já está virando hábito. Há seis meses foi um papagaio que era freqüentador assíduo das aulas de catequese da paróquia. Só descia da árvore na hora que a criançada lia o evangelho. Pagava carona nas palavras, causando um misto de risadas e comoção cristã. “É que tem gente que é supersticiosa e pensa que se levar embora um bicho que é da igreja, vai ter sorte em casa”, o padre arrisca um palpite enquanto joga milho para um galo que fica ao lado da sacristia. “Este aí é o Crispim. Namora uma galinha que está chocando lá atrás”. Quando nascem os pintinhos, tem fila de gente querendo levar para casa, tradição que já se arrasta há várias ninhadas. Talvez esta tenha sido a salvação do casal de galos da igreja dos Passarinhos, arrisco meu palpite. Os pintinhos suprem o desejo de alguns de ter em casa um bichinho de estimação supostamente sacro. Assim livram os pais deste roubo que atenta contra a santidade de um templo.
O padre já pensa em chavear a porta da igreja, até mesmo de dia, quando for obrigado a sair. Os passarinhos, os últimos dois que sobraram, no passado livres para voar fora e dentro do templo, agora ficarão presos. Presos duas vezes, nas gaiolas, que por sua vez, estão trancadas na casa de Deus.
Luiz Andrioli
crônica publicada no jornal GAZETA DO POVO em 18 de fevereiro de 2009
Em vinte e cinco de novembro de 2008, o jovem Fábio Eleotério, de vinte anos, se envolveu em um acidente com um ônibus expresso no centro de Curitiba. Era noite, testemunhas disseram que o coletivo estava em velocidade incompatível. Ele estourou uma parede de concreto e atingiu quarenta e cinco motos dentro de uma loja. Existe a suspeita de que o condutor tenha furado o sinal.
O caso ganhou repercussão, porque o coletivo ficou dias entalado dentro do estabelecimento. Uma imagem com ar absurdo que chegou a abafar a dor da família do estudante. Fabio se recupera das seqüelas neurológicas. Ele praticava artes marciais e todos os dias acordava as seis da manhã para trabalhar junto com o pai, que é técnico de próteses dentárias.
A família, com muita dificuldade, está pagando o tratamento. Técnicas mais caras e modernas poderiam melhorar a condição do rapaz, mas a empresa responsável pelo ônibus estaria se negando a acionar o seguro. De um lado a burocracia, do outro, uma vida que luta para se manter.
Conheci a família do Fábio durante uma reportagem e confesso que fiquei muito comovido. Pode acontecer com qualquer um de nós. Será que o mundo tem que ser necessariamente assim? Ficaremos sempre reféns de cidades que oprimem seus habitantes com a velocidade de seus carros e ônibus? Seremos sempre agredidos pela brutalidade deste sistema que faz de um simples deslocamento um ato de violência? E a “força da grana que ergue e destrói coisas belas” não pode ao menos por um instante trabalhar a favor da vida? Sei que parece um chavão, mas adoraria convidar o dono da empresa do ônibus que se envolveu no acidente para conversar com o pai do jovem Fábio. E que o empresário levasse junto o seu próprio filho. E que ficassem lado a lado os dois jovens… E que todo o resto falasse por si, acreditando que ainda existe nos homens um coração de verdade lá dentro do coração que cala.
O que vai abaixo é um desabafo. Um alerta. Um pedido de ajuda. Uma confissão. Uma comunhão. Uma cumplicidade com este pai, com o filho, com tanta gente que já sofreu nas mãos de um trânsito que é contra a vida. Uma voz de quem sonha com cidades que nos deixem viver.
***
Olhos que falam por um corpo que silencia
Um corpo preso dentro do corpo inerte no sofá
O passado aos poucos se esvai junto com o peso que diminui
Semana a semana
A foto na cabeceira parece de um estranho. Rapaz forte, cabelos grossos, braços que carregaram muitas namoradas apesar dos vinte e poucos anos; orgulho do pai, as medalhas dos tempos de competição ainda ali penduradas no quadro de cortiça; no computador, chegam ainda as mensagens dos amigos que não sabem, dos que sabem e não querem acreditar…
O pai cuida, fala na certeza de que lá dentro daquele corpo que prende o corpo inerte, sua voz é ouvida. A expressão não muda, senta, com dificuldade se apóia no braço do sofá e volta logo a deitar. O cobertor o esconde do frio, quando o vento bate, deixa que as emagrecidas pernas se mostrem para a visita.
No rosto do pai, toda a esperança do mundo. Uma força capaz de parar guerras, de mover economias mundiais, de estancar no braço multidões de torcedores ensandecidos… Só não consegue colocar de volta o filho no carro naquela noite, fazer com que ele tomasse outro caminho, que ao menos atrasasse o trajeto cinco segundos apenas. Se assim fosse, o ônibus passaria no sinal fechado, longe do seu menino, que teria apenas um susto para contar.
O pai pede a ajuda com a humildade dos grandes, com a força de quem tem a certeza de que vai livrar o corpo de dentro daquele corpo inerte. O visitante poderia ser um amigo de escola, por que não até estar de carona naquela noite? O filho estende a mão, um momento de lucidez, diz o pai, que são raros. Aperto de mão forte, dura o tempo da lágrima que o visitante esconde. Todos sorriem e se despedem. O corpo dentro do corpo se mostrara forte, cheio de desejo de vencer o que ora o aprisiona. Uma esperança a mais.
Luiz Andrioli, repórter que torce muito para que este garoto se recupere…
A partir de 01 de janeiro de 2009 estarei cometendo meus erros de Português de acordo com as novas normas da reforma ortográfica.
***
Agradeço aos visitantes que me prestigiaram com suas generosas visitas por aqui EM 2008. Meus votos para o ano que chega estão logo abaixo, neste texto que dividi com os colegas de trabalho na TV. Para quem não está acostumado com o jargão jornalístico, nós chamamos as matérias (ou reportagens) que vão ao ar de “VT”. É só um detalhezinho. No fundo, penso eu, o que segue nestas sugestões são notícias que poderiam fazer a nossa vida um pouco mais feliz. Pelo menos, são histórias que eu adoraria noticiar…
Até 2009!
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Amigos
Tenho um sonho que é fazer um jornal só comnotícias do bemque façam todo mundo feliz. Espero que neste próximo ano nosso faro jornalístico esteja apurado para mostrar também o que o ser humano faz de bom.
Na minha listinha de desejos para o ano que se aproxima, coloco alguns que gostaria de compartilhar com os colegas de jornada:
- Desejo que os nossos microfones sejam instrumentos para falar ao coração dos telespectadores.
- Espero que cada vez mais nossos telejornais comecem com notícias que normalmente deixamos lá no fim, que a comédia ganhe da tragédia, que o lirismo seja mais forte do que o drama…
- Torço para que o sorriso esteja presente em nossos “offs”, que possamos narrar fatos com a leveza de quem conta uma historinha para crianças.
- Que 2009 nos dê condições para que a sutileza esteja cada vez mais presente em nosso trabalho.
- Que as nossas pautas estejam afinadas com os espíritos do bem.
Vários jornais de notícias do bem… É o que desejo para todos nós!
Mando abaixo algumas sugestões para os nossos próximos jornais. Vamos lá?
VT ASILO DENÚNCIA
Chegou até a redação a notícia de que estão roubando conselhos dos moradores de um asilo. Sim, roubando conselhos. Furtando experiências. Coletando histórias que foram acumuladas durante anos de vida. Outro dia uma fonte nossa passou em frente à casa de repouso e viu uma fila enorme de pessoas. Dentro, eles ouviam atentamente cada palavra que os velhinhos falavam e ao final ainda dão um belo sorriso. Dizem até que teve gente que saiu dali e foi correndo para casa abraçar os pais como se fosse última vez. Atenção repórter: matéria para fazer com microfone de lapela, caso use o de mão, esteja preparado para abraçar com um braço só…
VT CRIANÇAS BAIRRO
Os bairros voltaram a ser dos pequenos. As ruas estão tranqüilas e é possível brincar de bete-ombro, caçador, pique esconde e amarelinha. No fim do dia, as mães gritam na janela que a janta está na mesa. Vamos fazer uma reportagem mostrando que nossa grande cidade voltou a ter aquela carinha de interior, nas janelas podemos sentir o cheiro de bolo de fubá com café quente. Atenção cinegrafistas: rende belas imagens dos rostinhos suados dos meninos que correm para fazer as pipas ganharem os céus.
VT ESCOLA PROFESSOR
Vamos até uma escola que está colocando na sala de aula o que eles chamam de professores de vida. A senhora que prepara a merenda dá aulas sobre como preparar a comida com carinho e fazer da escolha dos ingredientes um ritual que fala à alma de quem se alimenta. O jardineiro ensina as crianças a respeitar o ritmo de cada pequena flor. O pipoqueiro fala que de uma semente pequena e sem graça, que no passado até se jogava fora, é possível fazer uma deliciosa pipoca que a gente come até virar o saquinho na boca. Tem até professor que ensina Matemática, Português e Ciências, mas estes também sentam nas carteiras para aprender com os novos mestres contratados.
VT TRATAMENTO RISCO
Vamos conhecer a história do Sr. João. Ele teve uma vida de erros, desencontros, mágoas… Perdeu o contato com os filhos, se separou da primeira e da segunda mulher, tinha um cachorro que fugiu de casa, comprou um vasinho de flor, mas ela morreu por falta de água. Doente de tristeza, com o coração pesando que já não se escutava as batidas, procurou um médico que lhe prometeu um tratamento revolucionário. O paciente foi mandado para um baile em uma sociedade de bairro e deveria tirar para dançar a primeira mulher que lhe acelerasse o coração. Um pouco tímido, ele assim fez e no começo achou difícil dançar “Volare, ô ô” com a D. Júlia. Insistiu uma, duas, três e outras tantas canções. Ao final, recebeu um beijo no cantinho da boca. Trocaram telefones e marcaram outros bailes. Ganhou outro vaso de flores, recolheu um cachorro abandonado na rua e pediu Júlia em namoro. Hoje o coração bate tanto que até ajuda a ritmar a dança do mais novo casal do bairro. Estão de casamento marcado e pensam até em filhos. Ah, a cirurgia nem foi feita… O risco, na verdade, era o do coração bater forte demais. Parece que o personagem nem se importou com isso. Dizem que no consultório do médico, que vai nos levar até a casa dos personagens, tem uma fila de gente querendo saber onde é este bailinho…
VT BURACOS RUA
O centro da cidade está todo esburacado. E pasmem: com o consentimento da prefeitura. Os comerciantes estão se preparando para substituir boa parte das calçadas por gramados. Jardins estão sendo criados onde até pouco tempo era forrado pela rudeza do concreto. Segundo pesquisas, esta mudança foi possível após a redução do número de veículos em circulação. Congestionamentos agora, só de bicicletas com cestinhas e de pessoas andando a pé , curtindo o novo silêncio da cidade. Outro dia eu mesmo estava no centro e vi um grupo de executivos caminhando descalços em um gramado recém-plantado. Deixaram o estresse na terra e parece até que voltaram sorrindo para o escritório. Sabe aquela esquina que sempre congestionava bem lá no centrão, perto do posto de gasolina? Repare que pertinho das portas das lojas os funcionários plantaram mudas de alecrim, hortelã, manjericão e outros temperinhos. Está tudo a disposição de qualquer um! Favor trazer um pouquinho de tempero para nós da redação, ok?
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Tenho mais algumas sugestões, mas nós sabemos que jornal bom se faz com várias cabeças pensando. E, no caso, com vários corações sentindo… Quando sobrar um tempinho, escrevam abaixo suas sugestões de “notícias do bem” e compartilhem!
Um 2009 iluminado para todos! E repleto de notícias que falem à nossa alma!
Esta foi a primeira frase que ouvi daquele senhor de longos cabelos grisalhos presos em um rabo de cavalo, com uma barba farta, igualmente alva. Nariz grande que apoiava os óculos que já pareciam fazer parte de sua personalidade. Camisa jeans larga por fora da calça, jeito de boa praça, palavras que insistiam em serem faladas para dentro. “Bater o branco” é uma expressão técnica de TV, é ajustar as cores da câmera, quando o cinegrafista mira em alguma parede clara e ali deixa uns cinco segundos, até que a equalização das cores seja feita. Demos algumas risadas do comentário espirituoso e logo começamos a entrevista. Ricardo Sabbag era o entrevistador. Eu, produtor, apenas observei, encantado com a serenidade das repostas de Manoel Carlos Karam. Virei fã. Ganhamos o livro “Comendo bolacha Maria no dia de São Nunca”. Devorei em poucas horas, mais depressa do que de fato faria com os tais biscoitos. A Literatura daquele homem cabeludo grisalho havia me conquistado. Era de uma ironia fina, algo que pede alguns segundos (as vezes anos) para que se enxergue o sorrisinho irônico ao final de cada frase. Ainda durante a entrevista, um bom exemplo disso:
- Eu fiz o menor conto do mundo.
- Como é?
- “Circo? Tem não” – disse Karam, com uma expressão que só mais tarde, alguns anos depois, iria eu descobrir que era do mais extremo bom humor, acima de tudo, respeitoso, companheiro, brincalhão e prazeroso.
Por estas felicidades que a vida nos permite, algum tempo depois, fui repórter de um telejornal comandado por Karam durante dois anos. Ali, tive a chance de colocar no dia a dia do jornalismo um pouco da liberdade que ele usava e abusava em seus textos. Para ele, era permitido fazer reportagem em forma de poema, de hai kai, começar na voz de um repórter e terminar na fala de outro, ou ainda encerrar um telejornal com o apresentador recebendo uma pizza no estúdio. Claro, eram outros tempos, trabalhávamos em uma TV estatal na época pouco vigiada pelo poder dominante. Para Karam, um espaço de experimentos, de diluir as rígidas fronteiras que alguns insistem em manter entre o Jornalismo e a vida tal como ela é, múltipla, anárquica, libertária… Sei que hoje escrevo do jeito que escrevo por ter espiado por cima de seu ombro (com o consentimento do próprio, garanto) e guardado o máximo possível de lições. Ir além, sempre é possível. Falar ao ser humano. Deixar o encantamento de criança contaminar as palavras. Humor é aliado da inteligência. Simplicidade. Mais do que a forma, a verdade. Muito mais do que o conteúdo, a essência. Acima de tudo, o prazer de contar uma boa história. O prazer.
A principal história que contei até hoje não tive tempo de lhe entregar em mãos. Ele faleceu quinze dias antes do lançamento do meu primeiro livro, “O Circo e a Cidade”. Eu tinha até a piadinha pronta para lhe falar. “Karam, lembra do menor conto do mundo, aquele do “Circo? Tem não”. Vim aqui para te dizer que “Tem sim”. E então lhe entregaria um exemplar da biografia dos Queirolo, família circense que eu sabia também contar com a admiração dele. Não deu tempo. O homem cabeludo grisalho nos deixou antes. Duas semanas antes.
Há poucos dias, a Fundação Cultural de Curitiba prestou uma bela homenagem para Karam. A Casa da Leitura do Parque Barigüí, em Curitiba, (fica bem pertinho aqui de casa), foi rebatizada com o nome do escritor. Boa parte de seu acervo pessoal foi transferida para lá. Eu, microfone e bloquinho nas mãos, fui para lá gravar uma reportagem. Mais do que uma matéria, foi um momento de pegar nas mãos alguns livros que fizeram a cabeça de um homem que me fez muito a cabeça. Entrevisto a diretora teatral Nadja Naira, uma admiradora e pesquisadora da obra do escritor, e dela me vem a frase que traduz muito do que o Karam representou:
- Ele sempre ri no final.
Sim, é isso. Era esta a sensação que eu tinha ao terminar um dia de trabalho com ele, ao colocar mais um jornal no ar, ao achar aquela frase bacana para chamar atenção para uma reportagem, ao escutar mais uma de suas histórias que poderiam acabar aparentemente sem um final lógico. Ele sempre ri no final. A vida pode ser mais leve, era o que ele tentava nos dizer. O Jornalismo deve falar ao Homem, em sua plenitude, em sua grandeza… E para isso, que use e abuse da Literatura, do Cinema, da Poesia, do que quer que seja… Mas, acima de tudo, que nos faça rir no final. Ele sempre ri no final.
Talvez o tal do menor conto do mundo tenha sido uma bela provocação para este jovem escriba. Prefiro acreditar nisso, faria sentido e o Karam até me apoiaria em minha conclusão. Circo, tem sim, Karam, falo eu, numa tentativa de contrariar o mestre. Uma vã tentativa, ignorante de que era exatamente isso que ele estava querendo provocar. As vezes, a gente busca o novo sem saber que o caminho é exatamente aquele que já foi desenhado para nós. Que bom. Obrigado, Karam.
* No link abaixo, a reportagem sobre a Casa da Leitura Manoel Carlos Karam que foi ao ar na última quinta-feira, dia 03 de dezembro, no RIC Notícias 2ª edição, na RIC TV, Rede Record.
Curitiba perdeu nesta sexta-feira um de seus grandes nomes da Literatura. Valêncio Xavier foi uma figura muito importante para este jovem escriba. Ainda nos idos dos meus quinze aninhos, tive o prazer de ser seu aluno em uma oficina de roteiro. Lembro dele chegando em um fusca velho. Muito velho. Durante as aulas, sempre um cigarro embalando o raciocínio. Mais tarde, quase um jornalista formado, pude entrevistá-lo para um projeto da faculdade. Estava junto do meu grande amigo Ricardo Sabbag, que publicou em seu blog sua homenagem ao Valêncio. A entrevista, que aconteceu em uma manhã de 1999, foi certamente uma das melhores experiências que tivemos. Uma hora e meia de papo direto e divertido. Divido o texto inédito com os visitantes agora, neste dia em que Curitiba dá adeus ao seu Frankestein… Vá em paz, Valêncio!
***
VALÊNCIO XAVIER
Um Frankenstein razoavelmente honesto
Curitiba tem dois personagens conhecidos das narrativas de terror. Um é Dalton Trevisan, escritor recluso e avesso a entrevistas que também atende pelo codinome de “Vampiro de Curitiba”. O outro é Valêncio Xavier, cineasta e escritor, o Frankenstein de Curitiba. “O doutor Frankenstein pegava cadáveres e juntava as coisas. É uma definição da minha obra: eu faço arte com pedaços de coisas”, brinca Valêncio.
Na redação do jornal “A Gazeta do Povo”, Valêncio despeja alguns papéis que abarrotavam o bolso da camisa sobre a mesa. Ao perceber nossa chegada, pede um momento, faz algumas anotações e coloca novamente os papéis no bolso. Na escada próximo à sala onde nos concedeu a entrevista, avisou um companheiro de redação que estaria em outro ramal por algum tempo:
- Se alguém me ligar, estou lá embaixo
O jornalista não lhe prestou atenção, pois estava com um fone de ouvido. Falou mais alto:
- Ô Cara, se me ligarem, estou lá embaixo!
Ainda sem resposta, arriscou nova tentativa:
- Ô Jacú, se a Madonna me ligar, fala que estou dando uma entrevista.
Valéncio Xavier é paulista, radicado em Curitiba. Cabelos grisalhos, voz rouca, já chegou a aconselhar o uso do tabaco: podem fumar que não faz tanto mal. Eu fumo já faz tempo e tenho o pulmão de um criança.
Escritor e cineasta, é notavelmente um conhecedor das histórias peculiares de Curitiba. No filme “A Guerra do Pente”, de 1985, do poeta e cineasta Nivaldo “Palito” Lopes, depõem sobre a revolta popular que teve como estopim uma nota fiscal da venda de um pente. Defendendo-se contra qualquer ligação a correntes ideológicas, pede que não o confundam com nenhum partido político. “Eu sou mais eu”, brinca. Sobre a guerra, afirma que foi um movimento popular e libertário. “Não teve esta coisa de líder, de chefe. Mania de brasileiro é ter líder pra tudo”
Libertário parece ser uma palavra chave para Valêncio Xavier Niculitcheff. “Os filmes que eu prefiro são os que têm alguma carga libertária, de diretores que fazem filmes pelo gosto de fazer e não procuram cumprir regras”.
Fazer cinema pelo gosto pode até significar usar recursos próprio para realizar os sonhos em película. A produção da maioria dos seus filmes não contou com ajuda oficial. “Não tenho muito interesse pelo lado comercial do cinema. Faço pelo prazer”.
Considera-se um “homem de televisão”. Já produziu telenovelas, teleteatros e programas de auditório, como o do Sílvio Santos. Abandonou a televisão, por considerar que os programas são comandados com a mentalidade de publicitários. “Me encheu o saco”, desabafa, “ Naquela época, a televisão era ao vivo, verdadeira. Não dava para enganar”.
Recentemente foi “redescoberto” como escritor. A Companhia das Letras editou uma coletânea de livros, de nome “O Mez da Grippe e Outros Livros”. O poeta Décio Pignatari teceu elogios para os livros de Valêncio, classificando seu estilo como “Narrativa Visual”.
Na entrevista, não poupou críticas à “idiótica Fundação Cultural de Curitiba e à imbecil Secretaria de Estado da Cultura”. Eles odeiam a produção artística local, afirma lembrando as produções cinematográficas e teatrais de outros estados que receberam altas verbas dos órgão culturais do estado do Paraná.
Planejada para ser uma conversa de poucos minutos, a fluência do entrevistado acabou prolongando o tempo da entrevista para cerca de uma hora e meia. Pedimos desculpas ao entevistado:
- Valêncio, obrigado pela entrevista. A gente nem queria ter tomado tanto o seu tempo.
- É… Só que tomou, né??!!
Este é Valêncio. Nas palavras do próprio: um cara razoavelmente honesto.
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É possível fazer cinema em Curitiba?
É possível sim. É só querer fazer, né? A ditadura militar não ficou em vão vinte anos. Os artistas de Curitiba se acostumaram a depender do governo. Ninguém aqui não faz nada se não tiver a idiótica Fundação Cultural e a imbecil Secretaria de Estado da Cultura. E como estes poderes culturais oficiais não tem o mínimo interesse e detestam a produção cultural local, as coisas ficam realmente difíceis. Tem o caso do Banestado que foi obrigado pelo governador do Estado em exercício, no ano passado, a dar uma verba de 260 mil reais para a produção mineira “O Menino Maluquinho 2”, um filme mineiro. O Banestado não tem sequer uma agência em Minas Gerais, tem apenas um posto… E deixaram de lado o filme sobre o Barão de Cerro Azul, que é uma história paranaense. Este é um dos muitos exemplos de como os governos desprezam a produção cultural. E não é só de filmes. Basta ver as “Fernandas Montenegros da Vida” que chegam aqui e tiram o dinheiro do Paraná. A produção da peça “Dias Felizes” levou 400 mil reais para fazer aquela peça medíocre. Um fracasso de crítica e bilheteria no Brasil inteiro. No lançamento, aqui em Curitiba, ninguém aguentou ficar até o fim, só ficou quem estava a pagando a peça, os “Jaimes Lernes” da vida… Enfim, os governos locais detestam a produção artística local, é uma coisa doentia. Num país civilizado, esta gente estaria na cadeia.
Os seus filmes tiveram algum tipo de patrocínio oficial?
Os meus filmes sempre foram bancados por minha conta e risco. Com exceção de “Caro Senhor Fellini”, que recebeu prêmio em Salvador na Jornada Brasileira de Curta Metragem, o Jaime Lerner que pediu. Ele queria mostrar Curitiba para Fellini (gesto irônico e afetado com as mão).
Quais são os cineastas que te influenciaram?
Eu sempre digo que é difícil saber que influenciou a gente. Os diretores que eu gosto são o Buñuel, Alan Resnot e o meu filme favorito é um sueco de 1920, chamado “A Feitiçaria Através dos Tempos”. Os filmes que eu prefiro são os que têm alguma carga libertária, de diretores que fazem filmes pelo gosto de fazer e não procuram cumprir regras.
Existe como seguir uma escola cinematográfica?
Cada um deve fazer o que está a fim. É igual mulher: você tem que trepar com a mulher que você gosta (risadas) Não é porque falam “Pô, vai com aquela feiosa ali, ela é torta pra diabo mas é inteligente”, não é por aí…
Curitiba tem técnicos e artistas capacitados para cinema?
Nos últimos anos, Curitiba sofreu um “boom” de cinema. Técnicos, se não temos, basta buscar em outros lugares, isto é uma coisa comum em todos os pólos de cinema. Até Hollywood faz isto.
Como foi a produção do seu filme mais recente, “Nascimento, Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, que contou com a participação do personagem curitibano INRI Cristo?
Já está montado com uns 58 minutos. Foi feito em vídeo. Temumas partes que ainda não usei, que pretendo adicioná-las ao filme, para ficar um longa-metragem. Aí vou tentar descolar uma grana para passar para película nos Estados Unidos, que é bem mais barato e de melhor qualidade. Mas o “fazer a coisa” já é lucro. Só fiz uma exibição deste filme, no Cine Plaza, que tem a maior tela de Curitiba, para ver se a imagem e som resistiriam àquela projeção enorme. Cobrei entrada, até um preço meio caro para época, porque daí se o cara não gostasse já falaria: porra, você me fez pagar cinco paus para ver esta bosta!(risadas).Mas quem foi gostou, ninguém pediu o dinheiro de volta.
E por que a escolha do “ator” INRI Cristo?
Foi uma dificuldade falar com ele, não queria saber nada com televisão ou cinema. Eu fui franco. Falei que ia fazer um filme sobre Cristo e vou pegar os atores na hora, nas ruas de Curitiba, vou dar um ar popular para Jesus e como o senhor acha que é Cristo, gostaria de te convidar. Ele aceitou com a condição de filmar somente dentro do templo dele. Mas eu queria filmar fora também, porque ele tem lá uma antena parabólica onde havia pensado de fazer a cena da crucificação. Com o tempo ele foi tomando confiança e acabou saindo nas ruas para filmar e aceitou fazer a cena da crucificação na antena parabólica. Até falei para ele que se não gostasse do filme montado, eu desistiria da idéia.
Se ele não gostasse, você mudaria o filme?
Eu jogaria fora o filme mesmo. Em nenhum momento eu quis enganá-lo ou coisa parecida.
É importante contar histórias de Curitiba?
A gente é a cidade. O que você conta de você, conta da cidade. Fazendo um balanço das coisas que fiz e vou fazer, tudo é um documentário sobre Curitiba.
O cineasta Sílvio Back diz que o público curitibano á autofágico com seus artistas. Você sente isso?
Isso é uma imbecilidade que não é só o Sílvio Back que fala. É que o Sílvio é um mau diretor (risadas). Os filmes dele não tem público… É muito comum as pessoas atribuírem à esta autofagia curitibana os troços deles que não dão certo. Eu não posso me queixar disto, meus livros todos foram bem vendidos aqui em Curitiba. Vocêsnão estão aqui fazendo uma entrevista com um diabo de um escritor curitibano? Então?!! Não existe esta autofagia. Existe por parte do poderes culturais oficiais. Curitiba tem um dos maiores escritores de todos os tempos, que é o Dalton Trevisan. Pergunte se algum destes governantes se interessam por ele. Não. Eles têm medo e detestam o Trevisan.
Mas o Dalton precisou mandar seus livros para fora do Paraná para ser reconhecido.
É que Curitiba não tem editoras. Tem as oficiais, como a editora da UFPR, que editou um livro da Poeta Helena Kolody e não pagou os direitos autorais. Eles querem tudo de graça. Se você não tem uma editora firme, é difícil vender os livro. Eu sou contratado pela melhor editora do Brasil que é a Companhia das Letras e não tenho que me preocupar com estas coisas.
Mudando de assunto: e a sua época de televisão?
Eu sempre fui um homem de televisão. Desde 1960 eu trabalheiem televisão. Fiz tudo quanto é tipo de programa: telenovela, teleteatro, programa de auditório, fui produtor do Sílvio Santos… Depois me encheu o saco. Hoje televisão é profissão de publicitário e a publicidade não me interessa.
Mas é a publicidade que viabiliza os programas de televisão.
É. Mas você não precisa se guiar pelas pessoas que estão pagando, pelos publicitários. Eu, como desenhava, já fiz trabalhos para publicidade quando a grana apertava. Mas a televisão como está hoje, governada por publicitários, não me interessa.
E a qualidade dos programas de televisão?
Bom, você assiste televisão e vê. A “qualidade” taí!
Decaiu a qualidade?
Programas bom e ruins sempre tiveram. Eu sou de uma época que a televisão era ao vivo, não dava para enganar. Na hora de entrar no ar tinha que ter alguma coisa pronta. Não me interessa isso de trabalhar para públicos determinados. Não sinto tesão de fazer estes troços.
Você usa computador para escrever? Anota suas idéias em uma caderninho?
Eu tenho uma memória muito fraca. Então anoto algumas coisas para não esquecer. Neste último livro meu, O Meu 7º Dia, tinha anotado num papel uma coisa genial, que era o final do livro. Daquelas coisas que diriam “Nossa Valêncio, você é um gênio, como é que você bolou um troço destes?”. Mas não achei o papel e o livro e o livro acabou saindo com outro final. Se eu tivesse com o papelzinho aqui eu ia ler para você ver que coisa genial!
A Narrativa visual, que é evidente nos seus livros, vêm do seu lado cineasta?
Quem disse isto foi o Décio Pignatari. O Wilson Martins disse que eu trouxe o visual para a narrativa. É difícil dizer de onde vem certas coisas. Como é que você vai explicar de onde vem o amor que você sente por uma mulher? Eu escrevi um livro, O Minotauro, de raiva das pessoas dizerem que a minha literatura é cinematográfica. Toda a ação se passa no escuro, ou seja, é impossível se fazer cinema sem luz. Mas assim mesmo duas pessoas fizeram roteiro em cima do livro.
Qual a sua opinião sobre a imprensa brasileira?
Eu sou um homem razoavelmente honesto. No tempo que eu trabalhava em televisão, nunca falei sobre televisão. Hoje, como trabalho na imprensa, não vou falar sobre imprensa. Acho que seria uma falta de ética. A imprensa não é uma coisa que me preocupe. Mesmo que ache defeitos, não sei como sanar.
Você gosta do apelido Frankestein de Curitiba?
É uma definição da minha obra. O Frankestein é isto: alguém que construiu uma obra com pedaços de outros cadáveres.
Nota-se em textos seus a predominância do “eu-Valêncio Xavier”. Você se envolve com o que escreve?
Quando eu publiquei o “Mez da Grippe”, muita gente comentou e eu virei um “escritor” (gesto irônico), a crítica falou que escrever na primeira pessoa é literatura antiga. Então estou eu lá, ao lado de Machado de Assis e outros gênios da literatura. Aí passaram uns anos e saiu a revista, hoje extinta, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, uma edição sobre o Pós Modernismo. Diga-se de passagem que eu não tenho a mínima idéia do que é isto e nem quero saber, não está nas minhas preocupações… Mas escreveram lá que “no Brasil só existem dois escritores pós modernistas: Valêncio Xavier e Salviano Santiago”.
Tem algum conselho sobrando aí para dar para o pessoal que está começando?
Se eu posso ensinar alguma coisa para alguém, seja escrever ou qualquer coisa assim, é que a gente deve fazer o que sabe e quer, o resto vem sozinho. Tenho amigos aí que querem escrever, mostrar quem eles são… Eu não quero mostrar nada. Só mostro a minha carteira de identidade quando um policial me pede ou para abrir crediário. Não pretendo mostrar quem eu sou, qual partido eu sou, que tipo de mulher gosto… Quero escrever para me divertir e se possível divertir os outros também.