UMA GUERRA POR UM PENTE

abril 21st, 2008

Oito de dezembro de 1959. Antonio Haroldo Tavares, subtenente da Polícia Militar compra um pente e pede uma nota fiscal. O comerciante, o sírio-libanês Ahmad Najar, se nega a emitir o documento, talvez pelo irrisório valor, quinze cruzeiros. O policial bate o pé em nome de seu direito (e dever) de contribuinte. Não era uma questão de valor financeiro, mas sim, de princípios! O clima de tensão contamina os quatro funcionários da loja que ajudam o patrão a jogar o “problema” porta fora. No entrave corporal, Antonio tem uma perna fraturada. Cerca de trinta pessoas que assistem a briga se revoltam e iniciam uma depredação do Bazar Centenário. Era o estopim para a Guerra do Pente – Talvez a maior revolta popular já vista na capital paranaense. Mas a real motivação para a “barbárie urbana” que estava por acontecer ultrapassava os limites curitibanos.

O Brasil vivia uma época esperançosa, pelo menos era o que dizia a propaganda oficial. Juscelino Kubitschek, com a promessa dos cinqüenta anos de progresso em cinco de governo, buscava convencer a população do desenvolvimentismo puxado pela industrialização. O governo promovia o consumo com olhos na arrecadação. O cidadão era incentivado a pedir notas-fiscais e trocá-las por cupons que davam direito a participações em sorteios de prêmios. A campanha “Seu Talão Vale um Milhão” era uma mania brasileira que virou até tema de marchinha de carnaval em 1960.

Mas nem tudo se resumia a confete e serpentina. Os altos índices de inflação preocupavam os pais de família. O momento também era de tensão política. Dias antes militares haviam iniciado um movimento contra o governo JK, conhecido como o Levante de Aragarças. O movimento se apagaria poucos dias depois, mas algo de instável permaneceria no ar.

Voltemos àquela terça-feira, fim de tarde em Curitiba. O Bazar Centenário está com o estoque jogado na rua. O movimento cresceu e já soma duzentas pessoas. Nesta altura ninguém mais se importa com o comerciante que foi levado preso pela polícia ou com o fardado que seguiu de ambulância para um hospital. A região da Praça Tiradentes, reduto de vários comércios de sírio-libaneses, vira um palco de vandalismo. Lojas são invadidas, saqueadas, queimadas… Quem tem tempo, baixa as portas. Quem não tem, luta sem sucesso contra uma massa ensandecida. A multidão ganha o reforço dos que saem de seus serviços. O ataque ao comércio já não é o suficiente, a ira cai sobre os prédios públicos. Mostrando o caráter anárquico do quebra-quebra, onde poucas regras são estabelecidas tampouco seguidas, os revoltosos atacam até os carrinhos dos vendedores ambulantes de frutas.

Somente seis horas depois a coisa começou a se acalmar em Curitiba. A Polícia Civil contabilizou dez feridos, ironicamente oito deles eram policiais. De populares, mais de trinta presos, alguns com objetos furtados. Correu a boca pequena que o “protesto” era coisa de estudantes. A União Paranaense dos Estudantes foi a público lavar as mãos, atitude endossada em editorial de um dos jornais da capital. O periódico trazia em sua opinião que os “cabeças das desordens” eram “desocupados ou operários”.

O segundo dia

Logo cedo, enquanto alguns ainda saboreavam as manchetes sensacionalistas do tumulto, uma agitação no centro da cidade anuncia o segundo dia da Guerra do Pente. O comerciante Salim Mattar, da Casa Três Irmãos, ao ver a onda de depredação se aproximando, sacou de um revolver disparando cinco tiros para cima. Uma tentativa desesperada já que nem mesmo os tanques do Exército que foram deslocados para o front deram conta de amedrontar a população. Alguém tenta aproveitar o embalo para destilar um discurso político, o que é de pronto repelido – por pouco não sobrou uns bons sopapos para os oradores de plantão. O momento era de ataque ao patrimônio, pura catarse… Nada de teoria! O tumulto só terminaria na chegada da noite. Como motivo algo bem curitibano: uma chuvinha típica de não deixar alma viva na rua.

Na quinta-feira, as análises colocavam mais polêmica sobre os reais motivos da Guerra do Pente. Alguém comparou a insurreição curitibana ao Levante de Aragarças. Um famoso criminalista da época creditou a violência ao alto custo de vida – um desabafo do povo. “O problema é fome”, sentenciava outro. O fato é que algo acontecera além da previsibilidade costumeira do curitibano naqueles dois dias. Um dos grandes jornais da capital paranaense trouxe na capa: reestabelecida a ordem e a tranqüilidade. Ironicamente, pouco acima da manchete um anúncio em letras garrafais continuava a afirmar que “Seu Talão Vale um Milhão”.

Texto originalmente publicado na revista “Aventuras na História”, edição 17, janeiro de 2005.

Entrada Arquivado em: Reportagens

12 Comentários

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  • 1. Mauro (Mano)&hellip  |  abril 21st, 2008 at 7:50 pm

    Eita manão, vc sempre se aprimorando heim, parabéns véio, bem legal mesmo teu site. Ta ai, só confirmando minha visita e sempre prestigiando seu trabalho. Um abraço. Sucesso. Mauro

  • 2. deborah&hellip  |  abril 28th, 2008 at 2:44 am

    eu amo essa história, luiz!
    ela é simplesmente fantástica, surreal, irmãos coen total.

  • 3. Nazario Caetano&hellip  |  maio 1st, 2008 at 12:16 am

    Parabéns, voce realmente é um vencedor, um exemplo a ser seguido de perseverança e muita visão de futuro. Estamos sempre torcendo por suas vitórias e conquistas. Um grande abraço. Nazario e família.

  • 4. Yonny Díaz&hellip  |  maio 12th, 2008 at 8:19 am

    Olá Luiz, Prazer em te ler.
    Deijando meu registro, e parabenizando-te
    Abrazos
    Yonny….( Gringo)

  • 5. Weslei Tavares&hellip  |  maio 28th, 2008 at 5:23 pm

    Krak….

    Po eu sou neto do policial Antonio, Muito massa essa história, bm feito a esse comerciante q quiz enfrentalo….

    Isso prova que lei é para ser cumprida, e não para ficar só no papel..

    Abração…e vlw pela noticia sobre o assunto!

  • 6. fernando&hellip  |  julho 29th, 2008 at 7:11 pm

    parabens, ótimo texto, muito bom.

  • 7. Amaury Pezza&hellip  |  agosto 15th, 2008 at 4:44 pm

    Muito bacana esta história que, para mim, não passava de Lenda Urbana.

    Curitiba, minha cidade natal, exemplo e orgulho para o meu Brasil.

    Que falta faz este mesmo espírito nos dias de hoje. Aqui no Rio, onde eu trabalho, em frente ao Largo da Carioca, a coisa simplesmente fugiria ao controle!

    Parabéns Luiz a belissima narrativa.

    Abraços a todos!

  • 8. Jovelino Eurides Petri&hellip  |  setembro 13th, 2008 at 1:23 am

    Parabens pelo relato. Bem próximo da realidade. Posso afirmar com segurança, pois participei da ocorrência. Era militar engajado na Polícia do Exército e estive na linha de combate para desocupar a Rua XI de novembro que havia sido invadida pelos manifestantes.

  • 9. Marcos Klammer&hellip  |  abril 4th, 2009 at 12:49 am

    Luiz,

    Parabéns pela forma bacana que você contou a história, gostei muito da narrativa do cenário político da época.

    É muito bom saber das histórias dessa cidade maravilhosa.

    abçs

  • 10. antonio de paula&hellip  |  maio 6th, 2009 at 3:29 pm

    esta historia,deveria fazer parte do conteudo escolar curitibano. dentro de um contexto social economico e politico.

  • 11. francisco raymundo c filh&hellip  |  maio 14th, 2009 at 1:55 pm

    O fim do Cine América.

    Eu ví,infelismente)foi uma das consequencias da “GUERRA DO PENTE” estava eu com minha mãe em uma loja próxima quando uma multidão se deslocou da Av Luiz Xavier liderada por um “aparentemente desocupado” (diríamos hoje um maloqueiro) jovem,20 anos mais ou menos, meio gordo, que aos gritos inflamava a massa composta por aproximadamente umas cem pessoas entre jovens e de meia idade,armados com pedras, barras de ferro e paus retirados de predios por eles já atingidos e danificados ou recolhidos na rua, todos com um padrão de operários (gente simples) talvez interessado nos butins resultantes dos possíveis saques,à se dirigirem ao CINE CURITIBA, cinema de baixa categoria localizado na Vol. da Pátria.

    “-Vamos quebrar o Cine Curitiba!”

    Essa era a ordem e todos o seguiam;porém ao se aproximarem do alvo notei uma pessoa que havia saído do dito cinema foi ao encontro do lider que vinha na frente do populacho e falando baixo ,rápidamente, o convenceu de desistir daquele objetivo e de imediato os gritos desse líder foram:

    -”O Cine Curitiba não, vamos quebrar o Cine América!”

    O Cine América era EXATAMENTE AO LADO do primeiro ,porém de outro dono e da mesma categoria.
    O Cine América foi atacado a paus e pedras, suas portas foram arrancadas, vidros e espelhos quebrados, enfim foi arrazado pela turba insandecida.

    Polícia? Se veio, eu não ví.O dono da loja que estávamos baixou a porta e nós saímos rapidamente dalí.
    Felismente pessoas na rua não interessavam àqueles depredadores.

    Mas ficou na minha mente a pergunta:
    por que?
    Motivos políticos? Não acredito.
    Fome? Saque?
    Não tinha o que saquear alí.
    Acredito que o Cine América desapareceu por um PURO ATO DE VANDALISMO.

    Meses depois foi demolido para dar lugar à um predio comercial.

    Meninos, eu ví!
    Abs
    Francisco Raymundo Cominese

  • 12. Guto Rodriguess&hellip  |  junho 24th, 2009 at 7:21 pm

    Olá Luiz,
    Em primeiro lugar, parabéns pela coluna.
    Sou roteirista e estudante de cinema. Estou preparando um material pra fazer um novo documentário sobre a Guerra do Pente. Gostaria de saber se podemos conversar um pouco sobre o assunto.
    Vi que um senhor acima, Jovelino Eurides, afirma ter participado da revolta (militar). Vc tem o contato dele? Teria de mais pessoas que participaram desse conflito?
    Aguardo resposta.
    Guto Rodriguess


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