
um silêncio que me olha
Uma sala vazia com o meu nome escrito errado na porta. Por um momento sorri. Se algum amigo notasse o aviso, poderia pensar que era fruto de uma recente adesão à cabala, ou coisa assim. Entrei e sentei na última fileira. Seis da tarde, horário programado para começar a palestra que eu daria sobre um livro infanto-juvenil que escrevi há alguns anos. A editora havia me advertido dos riscos de enfrentar uma sala com poucas pessoas, muito provavelmente, vazia. Problemas de uma organização falha e de uma divulgação precária. Um nome novo diante de figurões do cenário da Literatura nacional. Em outras situações, a direção do evento poderia ter levado crianças de escola para o bate-papo ou alguma iniciativa do gênero. Não foi o que aconteceu.
E foi assim: a palestramais silenciosa do evento. Sentado, olhava as fileiras a minha frente, imóveis como em um templo. A mesa do palestrante tinha um Luiz Andrioli ideal, sem rumores, quieto e sereno. Ausente do mundo. Sem palavras. Parecido com o Luiz Andrioli sentado próximo da porta. Eram dois autores preenchendo uma sala vazia. Dois envolvidos em seus silêncios. Um palestrando sem palavras, outro ouvindo os motivos de seu próprio silêncio.
Não demorou muito chegou no auditório Cat Stevens. Suavemente, me veio a lembrança de sua bela canção “Wild Word”. Caminhou sereno e escolheu uma cadeira próxima da janela, acomodou-se com a dignidade de quem há trinta anos converteu-se ao islã. Um silêncio adotado depois de uma carreira meteórica no mundo da pop music. Logo em seguida veio um homem de sorriso largo e com um bigode que poderia cobrir um continente. O autor de “Como Nossos Pais” fez um rápido aceno de mão para o colega islâmico, piscou para mim em cumplicidade e sentou-se perto do corredor. Belchior foi notícia da imprensa barulhenta nas últimas semanas. A sua suposta “fuga” foi polemizada pelos programas populares. Fora encontrado (eu diria “invadido”) no Uruguai, em um hotel simpático, dono de seu sagrado silêncio. Penso que quem escreveu versos como “O passado é uma roupa que não nos serve mais” não precisa dizer mais nada.
Ficamos todos nós, em uma meditação de respeito, abençoados pelos grandes mestres do silêncio. A meditação de Buda, a eterna contemplação de Ghandi, os ouvidos atentos de Jesus, o olhar simples de Chico Xavier…Ídolos que falaram lindas palavras, é claro, mas que se fizeram eternos pelo silêncio, buscaram o conhecimento de si próprios neste mundo onde o barulho parece ditar um ritmo sem sentido.
A quietude do palestrante me fez lembrar da minha casa de infância. O piso de madeira estalava sozinho. Este era o único barulho que quebrava a noite silenciosa daquele bairro de imigrantes italianos. As vezes eu acordava com o estalar e de imediato meu olhar ia para uma araucária que tomava a paisagem do fim da rua. Eu pensava em quantas pessoas do bairro estariam acordadas naquele mesmo momento, em silêncio, como eu estava. E me colocava a imaginar suas histórias. Crescia ali, em uma quietude marcada pelo ranger do assoalho, um escritor. O mesmo que agora falava sem palavras para Belchior, para Cat Setevens, para mim mesmo, sentado sozinho nos fundos do auditório de um evento que não aconteceu. Penso que meu próximo livro vai ser assim: no exato silêncio daquela palestra sem palavras.
Luiz Andrioli