Era possível até mesmo ver o brilho do chão onde estavam os carros. Em uma prateleira lateral, pastas organizadas tal qual um sistemático professor faria em seu gabinete. Andando por entre os veículos desmontados, surge Joarez em seu impecável guarda-pó branco. O cumprimento é afetuoso e extremamente cordial, um convite para conhecer o que em nada parece uma oficina mecânica. As pastas, azuis, guardam manuais e instruções técnicas de carros que ele conserta há mais de vinte anos.
Até esbocei procurar pelas paredes um pôster de mulher pelada, tal como encontraria na concorrência, para me certificar do local onde estava. Mas logo, assim que soube do sobrenome da figura que estava a minha frente, desisti: Sofiste, quase uma corruptela dada gratuitamente pela sua linhagem familiar, aproximando-o do grego Sophia, sabedoria para nós. Como que predestinado, Joarez nasceu com um pulguinha atrás da orelha sobre questões que muitos de nós até deixam passar. A vida não lhe trazia respostas fáceis, pelo contrário, cada vez mais parecia lhe oferecer perguntas mais difíceis. Joarez não se intimidou, se lançou na escuridão das dúvidas, peito aberto, procurando um caminho de lucidez que o levasse para longe da superficialidade.
Mas a vida não foi só de questionamentos e buscas metafísicas. O mecânico pegou no pesado desde cedo. Filho de caminhoneiro, tirou o sustento na boléia viajando por boa parte do Brasil. Enrijeceu os músculos descarregando sacas de algodão por aí. Até que um dia, o qual não lhe sai da memória, na estrada viu um grupo de estudantes de pastinha embaixo do braço:
- Eu senti inveja deles. Mas veja só: um homem que sente inveja de um estudante não pode estar atrás do volante de um caminhão!
Foi o insight definitivo, a maçã de Isaac Newton que lhe era atirada à cabeça naquela que seria uma de suas últimas viagens. Procurou então ocupações que lhe permitissem dedicar mais horas aos livros, tão prazerosas leituras em companhia de gente como Sócrates, Platão, Emerson, Nietzche, Descartes… Aquela angústia das dúvidas sem bálsamo parecia apontar para algumas soluções. Ou ao menos, para um caminho mais leve, consciente, pleno… O filósofo de nascença Sofiste agora se reconhecia como tal. A busca pelas respostas para o que via pelo mundo lhe dava uma chave para entrar em si mesmo. A partir de então, Joarez podia andar por onde quer que fosse, poderia ter a profissão que lhe conviesse ou lhe fosse permitida no momento, mas seria para sempre um companheiro de Sophia.
E foi com esta certeza de ter o conhecimento sempre presente em qualquer ato que esboçasse que Joarez aprendeu a arte da mecânica. Montou oficina própria e fez tudo do seu jeito. Como o poder de quem organiza o que temos de mais abstrato, que é o pensamento, decidiu que podia fazer um pátio de trabalho tão organizado quanto limpo. Quase não se vê graxa pela chão ou pelos uniformes dos quinze funcionários. Na entrada do local mantém um cartaz com os princípios éticos que norteiam o estabelecimento. Sim, a ética saiu dos tratados filosóficos e se fez rotina na oficina do Joarez. Afinal, o que seria da Filosofia senão uma Ciência para elevar o espírito dos Homens na prática do trabalho diário? Assim postula o mecânico com ar de professor, conhecedor das ferramentas dos carros e da vida. Joarez resume boa parte do que traz em seu livro de duzentas e tantas páginas na metáfora da bolinha de tênis, que acompanha cada exemplar vendido de “A Problemática do Homem: A Chave Para o Autoconhecimento”. Um pensamento é como uma bolinha lançada, afirma ele. Nós o jogamos para o universo e ele vai nos rebater, junto com outros pensamentos afins e voltar ainda maior para a gente. É a Lei da causalidade, diz o mecânico filósofo, que pouco a pouco faz esta idéia crescer a olhos vistos.
O filósofo não esquece das origens e tampouco distancia a prática literária da labuta diária na oficina. A quem adquire o livro, faz uma dedicatória assinada duas vezes: uma, com a rubrica “Jsofiste”; a outra, talvez a mais significativa, é um carimbo do dedo polegar cuidadosamente manchado de graxa. Uma discreta ironia, reveladora e elegante. Tal como o guarda-pó branco que reluz na oficina mecânica.
Luiz Andrioli
* Para quem quiser conhecer o trabalho do Joarez como filósofo, ele tem um site. O endereço é o http://www.joarezsofiste.com.br/ . Neste endereço dá para se informar sobre como adquirir o livro. Também aconselho, para os donos de veículos em Curitiba e região, a pensar seriamente no filósofo como sendo o mecânico de confiança… A oficina é organizadinha de verdade, fiquei impressionado. Acredito que isso reflita na qualidade do trabalho.
* No link abaixo, a reportagem que fizemos com o Joarez Sofiste para o RIC Notícias 2ª edição de 15 de maio de 2009, na RICTV, o canal Record no Paraná.
http://www.youtube.com/watch?v=BsEhKGk-OVM