Archive for maio, 2009

A MATERNIDADE QUE VIROU FUNERÁRIA

domingo, maio 24th, 2009

Se a vida é um ciclo, penso que eu achei o lugar onde ele se fecha exatamente no mesmo ponto. Pelo menos para alguns. A Funerária São Francisco, em Curitiba, é a mais antiga em funcionamento na capital. O negócio da morte foi instalado no mesmo prédio que abrigou o passado uma maternidade. Coincidência? Talvez… A razão explica, mas será que dá conta de toda a magia de um prédio que iniciou a jornada e selou o fim de diversos curitibanos? Lenda ou não, o dono do local afirma que já fez o enterro de gente que teve o parto realizado no mesmo prédio.

São coisas de Curitiba, cidade que faz a gente até gostar do friozinho, do céu cinza, ao mesmo tempo que desvia do vizinho para não ter que dar bom-dia. A funerária São Francisco não nos deixa esquecer que “do pó viemos e ao pó retornaremos”. Como sinal deste destino acolhedor e ameaçador, uma argola de metal que ainda hoje está fixa no meio-fio em frente ao estabelecimento. No passado, os cavalos eram amarrados ali. Com todo o crescimento da cidade, a argolinha parece ter ficado esquecida no chão. Ou nós fizemos questão de deixá-la no seu lugar. É um lembrete de que sempre seremos esta terra de gente sisuda, fechada e de poucas palavras. Temente do destino, seguros que encontraremos o nosso último destino exatamente onde tudo começou. É o choro do bebê misturado com o suspiro cansado do velho. O fim e o princípio se encontrando no mesmo lugar.

Abaixo segue o link da reportagem sobre a maternidade que virou funerária. A dica valiosa foi da amiga Lina Faria, fotógrafa atenta aos movimentos da cidade, que me concedeu uma entrevista alguns dias antes. A matéria foi ao ar no dia 22 de maio de 2009 no RIC Notícias segunda edição, na RICTV, o canal Record no Paraná. As imagens são do cinegrafista e bom amigo Ricardo Costa.

ASSISTA A REPORTAGEM DA MATERNIDADE QUE VIROU FUNERÁRIA

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LINA FARIA, UMA FOTÓGRAFA EM BUSCA DA ALMA DA CIDADE

domingo, maio 24th, 2009

Conheci a Lina Faria em 2006, quando fomos premiados no projeto de Registro do Patrimônio Imaterial de Curitiba. Ela desenvolvia um trabalho de registro do centro da capital paranaense com seu aguçado olhar fotográfico. Eu estava em busca do circo perdido, escrevendo sobre a história da família Queirolo, o que resultou no livro “O Circo e a Cidade”. Vendo a empolgação da Lina, aos poucos fui percebendo que no fundo a gente estava tratando do mesmo assunto: decifrar a Curitiba que tanto admiramos. Ela, com as lentes. Eu, com as palavras.

Fiquei fã de seu trabalho. Hoje acompanho diariamente suas fotos no http://naftalina55.blogspot.com .

Outro dia gravamos uma reportagem com ela. Digo “com” já que por vezes, principalmente quando o personagem é cativante, eu como repórter me sinto guiado. Não escrevo, sinto com fosse traduzido pelo olhar do outro. Assim foi com a Lina. Um belo encontro na cidade.

Abaixo o link da reportagem que foi ao ar no RIC Notícias 2ª edição em 16 de maio de 2009.

http://www.youtube.com/watch?v=hXxXWaDF8mA

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O MECÂNICO FILÓSOFO

terça-feira, maio 19th, 2009

 

Era possível até mesmo ver o brilho do chão onde estavam os carros. Em uma prateleira lateral, pastas organizadas tal qual um sistemático professor faria em seu gabinete. Andando por entre os veículos desmontados, surge Joarez em seu impecável guarda-pó branco. O cumprimento é afetuoso e extremamente cordial, um convite para conhecer o que em nada parece uma oficina mecânica. As pastas, azuis, guardam manuais e instruções técnicas de carros que ele conserta há mais de vinte anos.

Até esbocei procurar pelas paredes um pôster de mulher pelada, tal como encontraria na concorrência, para me certificar do local onde estava. Mas logo, assim que soube do sobrenome da figura que estava a minha frente, desisti: Sofiste, quase uma corruptela dada gratuitamente pela sua linhagem familiar, aproximando-o do grego Sophia, sabedoria para nós. Como que predestinado, Joarez nasceu com um pulguinha atrás da orelha sobre questões que muitos de nós até deixam passar. A vida não lhe trazia respostas fáceis, pelo contrário, cada vez mais parecia lhe oferecer perguntas mais difíceis. Joarez não se intimidou, se lançou na escuridão das dúvidas, peito aberto, procurando um caminho de lucidez que o levasse para longe da superficialidade.

         Mas a vida não foi só de questionamentos e buscas metafísicas. O mecânico pegou no pesado desde cedo. Filho de caminhoneiro, tirou o sustento na boléia viajando por boa parte do Brasil. Enrijeceu os músculos descarregando sacas de algodão por aí. Até que um dia, o qual não lhe sai da memória, na estrada viu um grupo de estudantes de pastinha embaixo do braço:

         - Eu senti inveja deles. Mas veja só: um homem que sente inveja de um estudante não pode estar atrás do volante de um caminhão!

         Foi o insight definitivo, a maçã de Isaac Newton que lhe era atirada à cabeça naquela que seria uma de suas últimas viagens. Procurou então ocupações que lhe permitissem dedicar mais horas aos livros, tão prazerosas leituras em companhia de gente como Sócrates, Platão, Emerson, Nietzche, Descartes… Aquela angústia das dúvidas sem bálsamo parecia apontar para algumas soluções. Ou ao menos, para um caminho mais leve, consciente, pleno… O filósofo de nascença Sofiste agora se reconhecia como tal. A busca pelas respostas para o que via pelo mundo lhe dava uma chave para entrar em si mesmo. A partir de então, Joarez podia andar por onde quer que fosse, poderia ter a profissão que lhe conviesse ou lhe fosse permitida no momento, mas seria para sempre um companheiro de Sophia.

         E foi com esta certeza de ter o conhecimento sempre presente em qualquer ato que esboçasse que Joarez aprendeu a arte da mecânica. Montou oficina própria e fez tudo do seu jeito. Como o poder de quem organiza o que temos de mais abstrato, que é o pensamento, decidiu que podia fazer um pátio de trabalho tão organizado quanto limpo. Quase não se vê graxa pela chão ou pelos uniformes dos quinze funcionários. Na entrada do local mantém um cartaz com os princípios éticos que norteiam o estabelecimento. Sim, a ética saiu dos tratados filosóficos e se fez rotina na oficina do Joarez. Afinal, o que seria da Filosofia senão uma Ciência para elevar o espírito dos Homens na prática do trabalho diário? Assim postula o mecânico com ar de professor, conhecedor das ferramentas dos carros e da vida. Joarez resume boa parte do que traz em seu livro de duzentas e tantas páginas na metáfora da bolinha de tênis, que acompanha cada exemplar vendido de “A Problemática do Homem: A Chave Para o Autoconhecimento”. Um pensamento é como uma bolinha lançada, afirma ele. Nós o jogamos para o universo e ele vai nos rebater, junto com outros pensamentos afins e voltar ainda maior para a gente. É a Lei da causalidade, diz o mecânico filósofo, que pouco a pouco faz esta idéia crescer a olhos vistos.

         O filósofo não esquece das origens e tampouco distancia a prática literária da labuta diária na oficina. A quem adquire o livro, faz uma dedicatória assinada duas vezes: uma, com a rubrica “Jsofiste”; a outra, talvez a mais significativa, é um carimbo do dedo polegar cuidadosamente manchado de graxa. Uma discreta ironia, reveladora e elegante. Tal como o guarda-pó branco que reluz na oficina mecânica.

 

         Luiz Andrioli

 

         * Para quem quiser conhecer o trabalho do Joarez como filósofo, ele tem um site. O endereço é o http://www.joarezsofiste.com.br/ . Neste endereço dá para se informar sobre como adquirir o livro. Também aconselho, para os donos de veículos em Curitiba e região, a pensar seriamente no filósofo como sendo o mecânico de confiança… A oficina é organizadinha de verdade, fiquei impressionado. Acredito que isso reflita na qualidade do trabalho.

         * No link abaixo, a reportagem que fizemos com o Joarez Sofiste para o RIC Notícias 2ª edição de 15 de maio de 2009, na RICTV, o canal Record no Paraná.

http://www.youtube.com/watch?v=BsEhKGk-OVM 

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