O CARNAVAL DO SOLDADOR
quarta-feira, fevereiro 25th, 2009 Conseguiu que a chefia da metalúrgica lhe desse folga no sábado. Carnaval, oficialmente, não é feriado. Todo ano era a mesma negociação. Patrão que não lhe liberasse corria o risco de começar a quarta-feira de cinzas colocando anúncio no jornal procurando soldador. Cinqüenta e sete anos, há uns trinta e poucos que pulava de emprego em emprego, sem se importar com a rotatividade. Casado duas vezes, separou-se das duas. Agora só de enrosco com uma dona aí que passava a cada quinze dias por Curitiba. Carioca ela, não entendia como que um autêntico representante da terra das araucárias podia ter tanto gosto por carnaval.
Acordou dez da manhã. Três horas a mais de sono lhe fariam bem, poderiam até deixar os passos mais leves durante o desfile, previsto para perto da virada da noite. Ainda antes da água do café esquentar, ouviu o chio da latinha de cerveja abrindo, a primeira do dia. Mas não foram muitas, ele gostava da gelada só no começo da festa. Com o avançar das horas, preferia a praticidade dos tiros seco de vermuth com vodka. Colocou no toca fita o samba enredo da escola e tirou da geladeira meio quilo de lingüiça. Era dia de festa, do rosto caía o suor na brasa da churrasqueira, mais forte a cada abanada com a tampa do pote de plástico. Que pena a dona do Rio de Janeiro não estivar por aqui hoje. Passou o terno branco da escola de samba na mesinha da sala. Com a toalhinha deu o último brilho no sapato. Ah, era bem capaz da dona convidá-lo para viajar para o Rio de Janeiro se o visse naquela roupa lustrosa! E ele iria, claro. A dona era de pagar tudo… Como recusar? Mas que fosse em outro dia. Carnaval, para o mestre sala da Unidos do Bairro Alto, era só o de Curitiba.
A cidade corria por ele no ritmo das pedaladas. Pouco mais de dez quilômetros de casa até a passarela do samba curitibano. Não era dia para pressa, deixava os prédios, carros e casas passarem lentamente por ele. Ciclista do samba, dobrou a barra da calça para não sujar com a graxa da correia. A cidade atravessava seu corpo, ébrio também pelo desejo de se ver pulsando no ritmo da bateria.
Na avenida, palco pronto para o espetáculo de logo mais, desceu da bicicleta e caminhou com ela devagar pela calçada. Respeito igual a tirar o chapéu frente a uma autoridade. Contemplou o asfalto, as arquibancadas ainda um pouco vazias, a garoa leve que só se via na contraluz do poste, o cheiro do bacon estalando com a pipoca, um cachorro que nem se atrevia a latir… Pediu para deixar a bicicleta ao lado do carrinho da maçã do amor. “Tem tranca, não, meu senhor, ninguém vai roubar, só dá uma olhadinha, sem compromisso… Hoje é carnaval!”, foi o que disse com a autoridade de um mestre sala.
Fez da avenida o seu mais íntimo lugar. Dos cento e sessenta e sete integrantes da escola, era o único que trazia a cidade no sorriso. A destreza que mostrava durante todo o ano no ferro de solda, carregava também naqueles vinte e poucos minutos para um corpo que tamborilava no asfalto. Sentia que a avenida elevava o seu corpo, deixava-o da altura dos postes, do porte dos carros alegóricos, com a força da bateria, com a garra dos puxadores do samba enredo. A noite era dele, só dele. Ah, a dona carioca tinha que estar ali na arquibancada. Ela aplaudiria ainda mais forte que os outros, pensou.
Bêbado de alegria, saiu da passarela direito para a bicicleta. Não queria dividir com mais ninguém aquela alegria. Era dono de sua própria euforia e com ela voltaria para casa, guardaria em uma caixa, se preciso fosse. Queria fazer com que aquele brilho dos vinte minutos durasse o máximo possível, se possível, até o próximo carnaval. Encontrou a bicicleta jogada no chão, quem ficara de dar uma olhadinha mal o fez. Talvez uma ré mal dada por algum motorista explicasse a roda torta. Não tinha problemas, ainda agüentaria levá-lo até em casa. Parou para dobrar a barra da calça, sentou no memorial em frente ao Palácio do Governo. Deixou-se deitar levado pelo peso da noite. A garoa cessara, ficaram apenas as estrelas e o batuque das outras escolas. Cada compasso fazia do mestre sala algo mais parecido com um anjo, dormindo, como testemunha as costas da multidão que só tinha olhos para a avenida. Se a dona carioca o visse ali, é certo que não o acordaria. Naquele sono pleno, repousava o carnaval de Curitiba.
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