
Curitiba perdeu nesta sexta-feira um de seus grandes nomes da Literatura. Valêncio Xavier foi uma figura muito importante para este jovem escriba. Ainda nos idos dos meus quinze aninhos, tive o prazer de ser seu aluno em uma oficina de roteiro. Lembro dele chegando em um fusca velho. Muito velho. Durante as aulas, sempre um cigarro embalando o raciocínio. Mais tarde, quase um jornalista formado, pude entrevistá-lo para um projeto da faculdade. Estava junto do meu grande amigo Ricardo Sabbag, que publicou em seu blog sua homenagem ao Valêncio. A entrevista, que aconteceu em uma manhã de 1999, foi certamente uma das melhores experiências que tivemos. Uma hora e meia de papo direto e divertido. Divido o texto inédito com os visitantes agora, neste dia em que Curitiba dá adeus ao seu Frankestein… Vá em paz, Valêncio!
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VALÊNCIO XAVIER
Um Frankenstein razoavelmente honesto
Curitiba tem dois personagens conhecidos das narrativas de terror. Um é Dalton Trevisan, escritor recluso e avesso a entrevistas que também atende pelo codinome de “Vampiro de Curitiba”. O outro é Valêncio Xavier, cineasta e escritor, o Frankenstein de Curitiba. “O doutor Frankenstein pegava cadáveres e juntava as coisas. É uma definição da minha obra: eu faço arte com pedaços de coisas”, brinca Valêncio.
Na redação do jornal “A Gazeta do Povo”, Valêncio despeja alguns papéis que abarrotavam o bolso da camisa sobre a mesa. Ao perceber nossa chegada, pede um momento, faz algumas anotações e coloca novamente os papéis no bolso. Na escada próximo à sala onde nos concedeu a entrevista, avisou um companheiro de redação que estaria em outro ramal por algum tempo:
- Se alguém me ligar, estou lá embaixo
O jornalista não lhe prestou atenção, pois estava com um fone de ouvido. Falou mais alto:
- Ô Cara, se me ligarem, estou lá embaixo!
Ainda sem resposta, arriscou nova tentativa:
- Ô Jacú, se a Madonna me ligar, fala que estou dando uma entrevista.
Valéncio Xavier é paulista, radicado em Curitiba. Cabelos grisalhos, voz rouca, já chegou a aconselhar o uso do tabaco: podem fumar que não faz tanto mal. Eu fumo já faz tempo e tenho o pulmão de um criança.
Escritor e cineasta, é notavelmente um conhecedor das histórias peculiares de Curitiba. No filme “A Guerra do Pente”, de 1985, do poeta e cineasta Nivaldo “Palito” Lopes, depõem sobre a revolta popular que teve como estopim uma nota fiscal da venda de um pente. Defendendo-se contra qualquer ligação a correntes ideológicas, pede que não o confundam com nenhum partido político. “Eu sou mais eu”, brinca. Sobre a guerra, afirma que foi um movimento popular e libertário. “Não teve esta coisa de líder, de chefe. Mania de brasileiro é ter líder pra tudo”
Libertário parece ser uma palavra chave para Valêncio Xavier Niculitcheff. “Os filmes que eu prefiro são os que têm alguma carga libertária, de diretores que fazem filmes pelo gosto de fazer e não procuram cumprir regras”.
Fazer cinema pelo gosto pode até significar usar recursos próprio para realizar os sonhos em película. A produção da maioria dos seus filmes não contou com ajuda oficial. “Não tenho muito interesse pelo lado comercial do cinema. Faço pelo prazer”.
Considera-se um “homem de televisão”. Já produziu telenovelas, teleteatros e programas de auditório, como o do Sílvio Santos. Abandonou a televisão, por considerar que os programas são comandados com a mentalidade de publicitários. “Me encheu o saco”, desabafa, “ Naquela época, a televisão era ao vivo, verdadeira. Não dava para enganar”.
Recentemente foi “redescoberto” como escritor. A Companhia das Letras editou uma coletânea de livros, de nome “O Mez da Grippe e Outros Livros”. O poeta Décio Pignatari teceu elogios para os livros de Valêncio, classificando seu estilo como “Narrativa Visual”.
Na entrevista, não poupou críticas à “idiótica Fundação Cultural de Curitiba e à imbecil Secretaria de Estado da Cultura”. Eles odeiam a produção artística local, afirma lembrando as produções cinematográficas e teatrais de outros estados que receberam altas verbas dos órgão culturais do estado do Paraná.
Planejada para ser uma conversa de poucos minutos, a fluência do entrevistado acabou prolongando o tempo da entrevista para cerca de uma hora e meia. Pedimos desculpas ao entevistado:
- Valêncio, obrigado pela entrevista. A gente nem queria ter tomado tanto o seu tempo.
- É… Só que tomou, né??!!
Este é Valêncio. Nas palavras do próprio: um cara razoavelmente honesto.
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É possível fazer cinema em Curitiba?
É possível sim. É só querer fazer, né? A ditadura militar não ficou em vão vinte anos. Os artistas de Curitiba se acostumaram a depender do governo. Ninguém aqui não faz nada se não tiver a idiótica Fundação Cultural e a imbecil Secretaria de Estado da Cultura. E como estes poderes culturais oficiais não tem o mínimo interesse e detestam a produção cultural local, as coisas ficam realmente difíceis. Tem o caso do Banestado que foi obrigado pelo governador do Estado em exercício, no ano passado, a dar uma verba de 260 mil reais para a produção mineira “O Menino Maluquinho 2”, um filme mineiro. O Banestado não tem sequer uma agência em Minas Gerais, tem apenas um posto… E deixaram de lado o filme sobre o Barão de Cerro Azul, que é uma história paranaense. Este é um dos muitos exemplos de como os governos desprezam a produção cultural. E não é só de filmes. Basta ver as “Fernandas Montenegros da Vida” que chegam aqui e tiram o dinheiro do Paraná. A produção da peça “Dias Felizes” levou 400 mil reais para fazer aquela peça medíocre. Um fracasso de crítica e bilheteria no Brasil inteiro. No lançamento, aqui em Curitiba, ninguém aguentou ficar até o fim, só ficou quem estava a pagando a peça, os “Jaimes Lernes” da vida… Enfim, os governos locais detestam a produção artística local, é uma coisa doentia. Num país civilizado, esta gente estaria na cadeia.
Os seus filmes tiveram algum tipo de patrocínio oficial?
Os meus filmes sempre foram bancados por minha conta e risco. Com exceção de “Caro Senhor Fellini”, que recebeu prêmio em Salvador na Jornada Brasileira de Curta Metragem, o Jaime Lerner que pediu. Ele queria mostrar Curitiba para Fellini (gesto irônico e afetado com as mão).
Quais são os cineastas que te influenciaram?
Eu sempre digo que é difícil saber que influenciou a gente. Os diretores que eu gosto são o Buñuel, Alan Resnot e o meu filme favorito é um sueco de 1920, chamado “A Feitiçaria Através dos Tempos”. Os filmes que eu prefiro são os que têm alguma carga libertária, de diretores que fazem filmes pelo gosto de fazer e não procuram cumprir regras.
Existe como seguir uma escola cinematográfica?
Cada um deve fazer o que está a fim. É igual mulher: você tem que trepar com a mulher que você gosta (risadas) Não é porque falam “Pô, vai com aquela feiosa ali, ela é torta pra diabo mas é inteligente”, não é por aí…
Curitiba tem técnicos e artistas capacitados para cinema?
Nos últimos anos, Curitiba sofreu um “boom” de cinema. Técnicos, se não temos, basta buscar em outros lugares, isto é uma coisa comum em todos os pólos de cinema. Até Hollywood faz isto.
Como foi a produção do seu filme mais recente, “Nascimento, Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, que contou com a participação do personagem curitibano INRI Cristo?
Já está montado com uns 58 minutos. Foi feito em vídeo. Temumas partes que ainda não usei, que pretendo adicioná-las ao filme, para ficar um longa-metragem. Aí vou tentar descolar uma grana para passar para película nos Estados Unidos, que é bem mais barato e de melhor qualidade. Mas o “fazer a coisa” já é lucro. Só fiz uma exibição deste filme, no Cine Plaza, que tem a maior tela de Curitiba, para ver se a imagem e som resistiriam àquela projeção enorme. Cobrei entrada, até um preço meio caro para época, porque daí se o cara não gostasse já falaria: porra, você me fez pagar cinco paus para ver esta bosta!(risadas). Mas quem foi gostou, ninguém pediu o dinheiro de volta.
E por que a escolha do “ator” INRI Cristo?
Foi uma dificuldade falar com ele, não queria saber nada com televisão ou cinema. Eu fui franco. Falei que ia fazer um filme sobre Cristo e vou pegar os atores na hora, nas ruas de Curitiba, vou dar um ar popular para Jesus e como o senhor acha que é Cristo, gostaria de te convidar. Ele aceitou com a condição de filmar somente dentro do templo dele. Mas eu queria filmar fora também, porque ele tem lá uma antena parabólica onde havia pensado de fazer a cena da crucificação. Com o tempo ele foi tomando confiança e acabou saindo nas ruas para filmar e aceitou fazer a cena da crucificação na antena parabólica. Até falei para ele que se não gostasse do filme montado, eu desistiria da idéia.
Se ele não gostasse, você mudaria o filme?
Eu jogaria fora o filme mesmo. Em nenhum momento eu quis enganá-lo ou coisa parecida.
É importante contar histórias de Curitiba?
A gente é a cidade. O que você conta de você, conta da cidade. Fazendo um balanço das coisas que fiz e vou fazer, tudo é um documentário sobre Curitiba.
O cineasta Sílvio Back diz que o público curitibano á autofágico com seus artistas. Você sente isso?
Isso é uma imbecilidade que não é só o Sílvio Back que fala. É que o Sílvio é um mau diretor (risadas). Os filmes dele não tem público… É muito comum as pessoas atribuírem à esta autofagia curitibana os troços deles que não dão certo. Eu não posso me queixar disto, meus livros todos foram bem vendidos aqui em Curitiba. Vocêsnão estão aqui fazendo uma entrevista com um diabo de um escritor curitibano? Então?!! Não existe esta autofagia. Existe por parte do poderes culturais oficiais. Curitiba tem um dos maiores escritores de todos os tempos, que é o Dalton Trevisan. Pergunte se algum destes governantes se interessam por ele. Não. Eles têm medo e detestam o Trevisan.
Mas o Dalton precisou mandar seus livros para fora do Paraná para ser reconhecido.
É que Curitiba não tem editoras. Tem as oficiais, como a editora da UFPR, que editou um livro da Poeta Helena Kolody e não pagou os direitos autorais. Eles querem tudo de graça. Se você não tem uma editora firme, é difícil vender os livro. Eu sou contratado pela melhor editora do Brasil que é a Companhia das Letras e não tenho que me preocupar com estas coisas.
Mudando de assunto: e a sua época de televisão?
Eu sempre fui um homem de televisão. Desde 1960 eu trabalheiem televisão. Fiz tudo quanto é tipo de programa: telenovela, teleteatro, programa de auditório, fui produtor do Sílvio Santos… Depois me encheu o saco. Hoje televisão é profissão de publicitário e a publicidade não me interessa.
Mas é a publicidade que viabiliza os programas de televisão.
É. Mas você não precisa se guiar pelas pessoas que estão pagando, pelos publicitários. Eu, como desenhava, já fiz trabalhos para publicidade quando a grana apertava. Mas a televisão como está hoje, governada por publicitários, não me interessa.
E a qualidade dos programas de televisão?
Bom, você assiste televisão e vê. A “qualidade” taí!
Decaiu a qualidade?
Programas bom e ruins sempre tiveram. Eu sou de uma época que a televisão era ao vivo, não dava para enganar. Na hora de entrar no ar tinha que ter alguma coisa pronta. Não me interessa isso de trabalhar para públicos determinados. Não sinto tesão de fazer estes troços.
Você usa computador para escrever? Anota suas idéias em uma caderninho?
Eu tenho uma memória muito fraca. Então anoto algumas coisas para não esquecer. Neste último livro meu, O Meu 7º Dia, tinha anotado num papel uma coisa genial, que era o final do livro. Daquelas coisas que diriam “Nossa Valêncio, você é um gênio, como é que você bolou um troço destes?”. Mas não achei o papel e o livro e o livro acabou saindo com outro final. Se eu tivesse com o papelzinho aqui eu ia ler para você ver que coisa genial!
A Narrativa visual, que é evidente nos seus livros, vêm do seu lado cineasta?
Quem disse isto foi o Décio Pignatari. O Wilson Martins disse que eu trouxe o visual para a narrativa. É difícil dizer de onde vem certas coisas. Como é que você vai explicar de onde vem o amor que você sente por uma mulher? Eu escrevi um livro, O Minotauro, de raiva das pessoas dizerem que a minha literatura é cinematográfica. Toda a ação se passa no escuro, ou seja, é impossível se fazer cinema sem luz. Mas assim mesmo duas pessoas fizeram roteiro em cima do livro.
Qual a sua opinião sobre a imprensa brasileira?
Eu sou um homem razoavelmente honesto. No tempo que eu trabalhava em televisão, nunca falei sobre televisão. Hoje, como trabalho na imprensa, não vou falar sobre imprensa. Acho que seria uma falta de ética. A imprensa não é uma coisa que me preocupe. Mesmo que ache defeitos, não sei como sanar.
Você gosta do apelido Frankestein de Curitiba?
É uma definição da minha obra. O Frankestein é isto: alguém que construiu uma obra com pedaços de outros cadáveres.
Nota-se em textos seus a predominância do “eu-Valêncio Xavier”. Você se envolve com o que escreve?
Quando eu publiquei o “Mez da Grippe”, muita gente comentou e eu virei um “escritor” (gesto irônico), a crítica falou que escrever na primeira pessoa é literatura antiga. Então estou eu lá, ao lado de Machado de Assis e outros gênios da literatura. Aí passaram uns anos e saiu a revista, hoje extinta, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, uma edição sobre o Pós Modernismo. Diga-se de passagem que eu não tenho a mínima idéia do que é isto e nem quero saber, não está nas minhas preocupações… Mas escreveram lá que “no Brasil só existem dois escritores pós modernistas: Valêncio Xavier e Salviano Santiago”.
Tem algum conselho sobrando aí para dar para o pessoal que está começando?
Se eu posso ensinar alguma coisa para alguém, seja escrever ou qualquer coisa assim, é que a gente deve fazer o que sabe e quer, o resto vem sozinho. Tenho amigos aí que querem escrever, mostrar quem eles são… Eu não quero mostrar nada. Só mostro a minha carteira de identidade quando um policial me pede ou para abrir crediário. Não pretendo mostrar quem eu sou, qual partido eu sou, que tipo de mulher gosto… Quero escrever para me divertir e se possível divertir os outros também.
Texto e reportagem: Luiz Andrioli
* Colaborou na entrevista Ricardo Sabbag.
Novembro de 1999