Archive for dezembro, 2008

MAIS UM ANO VAI, OUTRO ANO VEM…

quarta-feira, dezembro 31st, 2008

         A partir de 01 de janeiro de 2009 estarei cometendo meus erros de Português de acordo com as novas normas da reforma ortográfica.

***

         Agradeço aos visitantes que me prestigiaram com suas generosas visitas por aqui EM 2008. Meus votos para o ano que chega estão logo abaixo, neste texto que dividi com os colegas de trabalho na TV. Para quem não está acostumado com o jargão jornalístico, nós chamamos as matérias (ou reportagens) que vão ao ar de “VT”. É só um detalhezinho. No fundo, penso eu, o que segue nestas sugestões são notícias que poderiam fazer a nossa vida um pouco mais feliz. Pelo menos, são histórias que eu adoraria noticiar…

         Até 2009!

***

Amigos

 

Tenho um sonho que é fazer um jornal só com notícias do bem que façam todo mundo feliz. Espero que neste próximo ano nosso faro jornalístico esteja apurado para mostrar também o que o ser humano faz de bom.

 

Na minha listinha de desejos para o ano que se aproxima, coloco alguns que gostaria de compartilhar com os colegas de jornada:

 

- Desejo que os nossos microfones sejam instrumentos para falar ao coração dos telespectadores.

 

- Espero que cada vez mais nossos telejornais comecem com notícias que normalmente deixamos lá no fim, que a comédia ganhe da tragédia, que o lirismo seja mais forte do que o drama…

 

- Torço para que o sorriso esteja presente em nossos “offs”, que possamos narrar fatos com a leveza de quem conta uma historinha para crianças.

 

- Que 2009 nos dê condições para que a sutileza esteja cada vez mais presente em nosso trabalho.

 

- Que as nossas pautas estejam afinadas com os espíritos do bem.

 

Vários jornais de notícias do bem… É o que desejo para todos nós!    

 

Mando abaixo algumas sugestões para os nossos próximos jornais. Vamos lá?

 

VT ASILO DENÚNCIA

 

 

 

Chegou até a redação a notícia de que estão roubando conselhos dos moradores de um asilo. Sim, roubando conselhos. Furtando experiências. Coletando histórias que foram acumuladas durante anos de vida. Outro dia uma fonte nossa passou em frente à casa de repouso e viu uma fila enorme de pessoas. Dentro, eles ouviam atentamente cada palavra que os velhinhos falavam e ao final ainda dão um belo sorriso. Dizem até que teve gente que saiu dali e foi correndo para casa abraçar os pais como se fosse última vez. Atenção repórter: matéria para fazer com microfone de lapela, caso use o de mão, esteja preparado para abraçar com um braço só…

 

 

 

VT CRIANÇAS BAIRRO

 

Os bairros voltaram a ser dos pequenos. As ruas estão tranqüilas e é possível brincar de bete-ombro, caçador, pique esconde e amarelinha. No fim do dia, as mães gritam na janela que a janta está na mesa. Vamos fazer uma reportagem mostrando que nossa grande cidade voltou a ter aquela carinha de interior, nas janelas podemos sentir o cheiro de bolo de fubá com café quente. Atenção cinegrafistas: rende belas imagens dos rostinhos suados dos meninos que correm para fazer as pipas ganharem os céus.

 

 

VT ESCOLA PROFESSOR

 

Vamos até uma escola que está colocando na sala de aula o que eles chamam de professores de vida. A senhora que prepara a merenda dá aulas sobre como preparar a comida com carinho e fazer da escolha dos ingredientes um ritual que fala à alma de quem se alimenta. O jardineiro ensina as crianças a respeitar o ritmo de cada pequena flor. O pipoqueiro fala que de uma semente pequena e sem graça, que no passado até se jogava fora, é possível fazer uma deliciosa pipoca que a gente come até virar o saquinho na boca. Tem até professor que ensina Matemática, Português e Ciências, mas estes também sentam nas carteiras para aprender com os novos mestres contratados.    

 

 

VT TRATAMENTO RISCO

  

Vamos conhecer a história do Sr. João. Ele teve uma vida de erros, desencontros, mágoas… Perdeu o contato com os filhos, se separou da primeira e da segunda mulher, tinha um cachorro que fugiu de casa, comprou um vasinho de flor, mas ela morreu por falta de água. Doente de tristeza, com o coração pesando que já não se escutava as batidas, procurou um médico que lhe prometeu um tratamento revolucionário. O paciente foi mandado para um baile em uma sociedade de bairro e deveria tirar para dançar a primeira mulher que lhe acelerasse o coração. Um pouco tímido, ele assim fez e no começo achou difícil dançar “Volare, ô ô” com a D. Júlia. Insistiu uma, duas, três e outras tantas canções. Ao final, recebeu um beijo no cantinho da boca. Trocaram telefones e marcaram outros bailes. Ganhou outro vaso de flores, recolheu um cachorro abandonado na rua e pediu Júlia em namoro. Hoje o coração bate tanto que até ajuda a ritmar a dança do mais novo casal do bairro. Estão de casamento marcado e pensam até em filhos. Ah, a cirurgia nem foi feita… O risco, na verdade, era o do coração bater forte demais. Parece que o personagem nem se importou com isso. Dizem que no consultório do médico, que vai nos levar até a casa dos personagens, tem uma fila de gente querendo saber onde é este bailinho…  

 

VT BURACOS RUA

 

O centro da cidade está todo esburacado. E pasmem: com o consentimento da prefeitura. Os comerciantes estão se preparando para substituir boa parte das calçadas por gramados. Jardins estão sendo criados onde até pouco tempo era forrado pela rudeza do concreto. Segundo pesquisas, esta mudança foi possível após a redução do número de veículos em circulação. Congestionamentos agora, só de bicicletas com cestinhas e de pessoas andando a pé , curtindo o novo silêncio da cidade. Outro dia eu mesmo estava no centro e vi um grupo de executivos caminhando descalços em um gramado recém-plantado. Deixaram o estresse na terra e parece até que voltaram sorrindo para o escritório. Sabe aquela esquina que sempre congestionava bem lá no centrão, perto do posto de gasolina? Repare que pertinho das portas das lojas os funcionários plantaram mudas de alecrim, hortelã, manjericão e outros temperinhos. Está tudo a disposição de qualquer um! Favor trazer um pouquinho de tempero para nós da redação, ok?

 

***

 

Tenho mais algumas sugestões, mas nós sabemos que jornal bom se faz com várias cabeças pensando. E, no caso, com vários corações sentindo… Quando sobrar um tempinho, escrevam abaixo suas sugestões de “notícias do bem” e compartilhem!

 

Um 2009 iluminado para todos! E repleto de notícias que falem à nossa alma!

 

Com carinho

 

Luiz Andrioli

 

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MANOEL CARLOS KARAM E O MENOR CONTO DO MUNDO

quarta-feira, dezembro 10th, 2008

- Pode bater o branco no meu cabelo.

Esta foi a primeira frase que ouvi daquele senhor de longos cabelos grisalhos presos em um rabo de cavalo, com uma barba farta, igualmente alva. Nariz grande que apoiava os óculos que já pareciam fazer parte de sua personalidade. Camisa jeans larga por fora da calça, jeito de boa praça, palavras que insistiam em serem faladas para dentro. “Bater o branco” é uma expressão técnica de TV, é ajustar as cores da câmera, quando o cinegrafista mira em alguma parede clara e ali deixa uns cinco segundos, até que a equalização das cores seja feita. Demos algumas risadas do comentário espirituoso e logo começamos a entrevista. Ricardo Sabbag era o entrevistador. Eu, produtor, apenas observei, encantado com a serenidade das repostas de Manoel Carlos Karam. Virei fã. Ganhamos o livro “Comendo bolacha Maria no dia de São Nunca”. Devorei em poucas horas, mais depressa do que de fato faria com os tais biscoitos. A Literatura daquele homem cabeludo grisalho havia me conquistado. Era de uma ironia fina, algo que pede alguns segundos (as vezes anos) para que se enxergue o sorrisinho irônico ao final de cada frase. Ainda durante a entrevista, um bom exemplo disso:

- Eu fiz o menor conto do mundo.

- Como é?

- “Circo? Tem não” – disse Karam, com uma expressão que só mais tarde, alguns anos depois, iria eu descobrir que era do mais extremo bom humor, acima de tudo, respeitoso, companheiro, brincalhão e prazeroso.

Por estas felicidades que a vida nos permite, algum tempo depois, fui repórter de um telejornal comandado por Karam durante dois anos. Ali, tive a chance de colocar no dia a dia do jornalismo um pouco da liberdade que ele usava e abusava em seus textos. Para ele, era permitido fazer reportagem em forma de poema, de hai kai, começar na voz de um repórter e terminar na fala de outro, ou ainda encerrar um telejornal com o apresentador recebendo uma pizza no estúdio. Claro, eram outros tempos, trabalhávamos em uma TV estatal na época pouco vigiada pelo poder dominante. Para Karam, um espaço de experimentos, de diluir as rígidas fronteiras que alguns insistem em manter entre o Jornalismo e a vida tal como ela é, múltipla, anárquica, libertária… Sei que hoje escrevo do jeito que escrevo por ter espiado por cima de seu ombro (com o consentimento do próprio, garanto) e guardado o máximo possível de lições. Ir além, sempre é possível. Falar ao ser humano. Deixar o encantamento de criança contaminar as palavras. Humor é aliado da inteligência. Simplicidade. Mais do que a forma, a verdade. Muito mais do que o conteúdo, a essência. Acima de tudo, o prazer de contar uma boa história. O prazer.

A principal história que contei até hoje não tive tempo de lhe entregar em mãos. Ele faleceu quinze dias antes do lançamento do meu primeiro livro, “O Circo e a Cidade”.  Eu tinha até a piadinha pronta para lhe falar. “Karam, lembra do menor conto do mundo, aquele do “Circo? Tem não”. Vim aqui para te dizer que “Tem sim”. E então lhe entregaria um exemplar da biografia dos Queirolo, família circense que eu sabia também contar com a admiração dele. Não deu tempo.  O homem cabeludo grisalho nos deixou antes.  Duas semanas antes.

Há poucos dias, a Fundação Cultural de Curitiba prestou uma bela homenagem para Karam. A Casa da Leitura do Parque Barigüí, em Curitiba, (fica bem pertinho aqui de casa), foi rebatizada com o nome do escritor. Boa parte de seu acervo pessoal foi transferida para lá. Eu, microfone e bloquinho nas mãos, fui para lá gravar uma reportagem. Mais do que uma matéria, foi um momento de pegar nas mãos alguns livros que fizeram a cabeça de um homem que me fez muito a cabeça. Entrevisto a diretora teatral Nadja Naira, uma admiradora e pesquisadora da obra do escritor, e dela me vem a frase que traduz muito do que o Karam representou:

- Ele sempre ri no final.

Sim, é isso. Era esta a sensação que eu tinha ao terminar um dia de trabalho com ele, ao colocar mais um jornal no ar, ao achar aquela frase bacana para chamar atenção para uma reportagem, ao escutar mais uma de suas histórias que poderiam acabar aparentemente sem um final lógico. Ele sempre ri no final. A vida pode ser mais leve, era o que ele tentava nos dizer. O Jornalismo deve falar ao Homem, em sua plenitude, em sua grandeza… E para isso, que use e abuse da Literatura, do Cinema, da Poesia, do que quer que seja… Mas, acima de tudo, que nos faça rir no final. Ele sempre ri no final.

Talvez o tal do menor conto do mundo tenha sido uma bela provocação para este jovem escriba. Prefiro acreditar nisso, faria sentido e o Karam até me apoiaria em minha conclusão. Circo, tem sim, Karam, falo eu, numa tentativa de contrariar o mestre. Uma vã tentativa, ignorante de que era exatamente isso que ele estava querendo provocar. As vezes, a gente busca o novo sem saber que o caminho é exatamente aquele que já foi desenhado para nós. Que bom. Obrigado, Karam.

 

* No link abaixo, a reportagem sobre a Casa da Leitura Manoel Carlos Karam  que foi ao ar na última quinta-feira, dia 03 de dezembro, no RIC Notícias 2ª edição, na RIC TV, Rede Record.

http://www.youtube.com/watch?v=12WsYea7chk

  

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VALÊNCIO XAVIER: A MORTE DO FRANKESTEIN

sexta-feira, dezembro 5th, 2008

 

Curitiba perdeu nesta sexta-feira um de seus grandes nomes da Literatura. Valêncio Xavier foi uma figura muito importante para este jovem escriba. Ainda nos idos dos meus quinze aninhos, tive o prazer de ser seu aluno em uma oficina de roteiro. Lembro dele chegando em um fusca velho. Muito velho. Durante as aulas, sempre um cigarro embalando o raciocínio. Mais tarde, quase um jornalista formado, pude entrevistá-lo para um projeto da faculdade. Estava junto do meu grande amigo Ricardo Sabbag, que publicou em seu blog sua homenagem ao Valêncio. A entrevista, que aconteceu em uma manhã de 1999, foi certamente uma das melhores experiências que tivemos. Uma hora e meia de papo direto e divertido. Divido o texto inédito com os visitantes agora, neste dia em que Curitiba dá adeus ao seu Frankestein… Vá em paz, Valêncio!

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VALÊNCIO XAVIER

Um Frankenstein razoavelmente honesto

Curitiba tem dois personagens conhecidos das narrativas de terror. Um é Dalton Trevisan, escritor recluso e avesso a entrevistas que também atende pelo codinome de “Vampiro de Curitiba”. O outro é Valêncio Xavier, cineasta e escritor, o Frankenstein de Curitiba. “O doutor Frankenstein pegava cadáveres e juntava as coisas. É uma definição da minha obra: eu faço arte com pedaços de coisas”, brinca Valêncio.

Na redação do jornal “A Gazeta do Povo”, Valêncio despeja alguns papéis que abarrotavam o bolso da camisa sobre a mesa. Ao perceber nossa chegada, pede um momento, faz algumas anotações e coloca novamente os papéis no bolso. Na escada próximo à sala onde nos concedeu a entrevista, avisou um companheiro de redação que estaria em outro ramal por algum tempo:

- Se alguém me ligar, estou lá embaixo

O jornalista não lhe prestou atenção, pois estava com um fone de ouvido. Falou mais alto:

- Ô Cara, se me ligarem, estou lá embaixo!

Ainda sem resposta, arriscou nova tentativa:

- Ô Jacú, se a Madonna me ligar, fala que estou dando uma entrevista.

Valéncio Xavier é paulista, radicado em Curitiba. Cabelos grisalhos, voz rouca, já chegou a aconselhar o uso do tabaco: podem fumar que não faz tanto mal. Eu fumo já faz tempo e tenho o pulmão de um criança.

Escritor e cineasta, é notavelmente um conhecedor das histórias peculiares de Curitiba. No filme “A Guerra do Pente”, de 1985, do poeta e cineasta Nivaldo “Palito” Lopes, depõem sobre a revolta popular que teve como estopim uma nota fiscal da venda de um pente. Defendendo-se contra qualquer ligação a correntes ideológicas, pede que não o confundam com nenhum partido político. “Eu sou mais eu”, brinca. Sobre a guerra, afirma que foi um movimento popular e libertário. “Não teve esta coisa de líder, de chefe. Mania de brasileiro é ter líder pra tudo”

Libertário parece ser uma palavra chave para Valêncio Xavier Niculitcheff. “Os filmes que eu prefiro são os que têm alguma carga libertária, de diretores que fazem filmes pelo gosto de fazer e não procuram cumprir regras”.

Fazer cinema pelo gosto pode até significar usar recursos próprio para realizar os sonhos em película. A produção da maioria dos seus filmes não contou com ajuda oficial. “Não tenho muito interesse pelo lado comercial do cinema. Faço pelo prazer”.

Considera-se um “homem de televisão”. Já produziu telenovelas, teleteatros e programas de auditório, como o do Sílvio Santos. Abandonou a televisão, por considerar que os programas são comandados com a mentalidade de publicitários. “Me encheu o saco”, desabafa, “ Naquela época, a televisão era ao vivo, verdadeira. Não dava para enganar”.

Recentemente foi “redescoberto” como escritor. A Companhia das Letras editou uma coletânea de livros, de nome “O Mez da Grippe e Outros Livros”. O poeta Décio Pignatari teceu elogios para os livros de Valêncio, classificando seu estilo como “Narrativa Visual”.

Na entrevista, não poupou críticas à “idiótica Fundação Cultural de Curitiba e à imbecil Secretaria de Estado da Cultura”. Eles odeiam a produção artística local, afirma lembrando as produções cinematográficas e teatrais de outros estados que receberam altas verbas dos órgão culturais do estado do Paraná.

Planejada para ser uma conversa de poucos minutos, a fluência do entrevistado acabou prolongando o tempo da entrevista para cerca de uma hora e meia. Pedimos desculpas ao entevistado:

- Valêncio, obrigado pela entrevista. A gente nem queria ter tomado tanto o seu tempo.

- É… Só que tomou, né??!!

Este é Valêncio. Nas palavras do próprio: um cara razoavelmente honesto.

***

É possível fazer cinema em Curitiba?

É possível sim. É só querer fazer, né? A ditadura militar não ficou em vão vinte anos. Os artistas de Curitiba se acostumaram a depender do governo. Ninguém aqui não faz nada se não tiver a idiótica Fundação Cultural e a imbecil Secretaria de Estado da Cultura. E como estes poderes culturais oficiais não tem o mínimo interesse e detestam a produção cultural local, as coisas ficam realmente difíceis. Tem o caso do Banestado que foi obrigado pelo governador do Estado em exercício, no ano passado, a dar uma verba de 260 mil reais para a produção mineira “O Menino Maluquinho 2”, um filme mineiro. O Banestado não tem sequer uma agência em Minas Gerais, tem apenas um posto… E deixaram de lado o filme sobre o Barão de Cerro Azul, que é uma história paranaense. Este é um dos muitos exemplos de como os governos desprezam a produção cultural. E não é só de filmes. Basta ver as “Fernandas Montenegros da Vida” que chegam aqui e tiram o dinheiro do Paraná. A produção da peça “Dias Felizes” levou 400 mil reais para fazer aquela peça medíocre. Um fracasso de crítica e bilheteria no Brasil inteiro. No lançamento, aqui em Curitiba, ninguém aguentou ficar até o fim, só ficou quem estava a pagando a peça, os “Jaimes Lernes” da vida… Enfim, os governos locais detestam a produção artística local, é uma coisa doentia. Num país civilizado, esta gente estaria na cadeia.

Os seus filmes tiveram algum tipo de patrocínio oficial?

Os meus filmes sempre foram bancados por minha conta e risco. Com exceção de “Caro Senhor Fellini”, que recebeu prêmio em Salvador na Jornada Brasileira de Curta Metragem, o Jaime Lerner que pediu. Ele queria mostrar Curitiba para Fellini (gesto irônico e afetado com as mão).

Quais são os cineastas que te influenciaram?

Eu sempre digo que é difícil saber que influenciou a gente. Os diretores que eu gosto são o Buñuel, Alan Resnot e o meu filme favorito é um sueco de 1920, chamado “A Feitiçaria Através dos Tempos”. Os filmes que eu prefiro são os que têm alguma carga libertária, de diretores que fazem filmes pelo gosto de fazer e não procuram cumprir regras.

Existe como seguir uma escola cinematográfica?

Cada um deve fazer o que está a fim. É igual mulher: você tem que trepar com a mulher que você gosta (risadas) Não é porque falam “Pô, vai com aquela feiosa ali, ela é torta pra diabo mas é inteligente”, não é por aí…

Curitiba tem técnicos e artistas capacitados para cinema?

Nos últimos anos, Curitiba sofreu um “boom” de cinema. Técnicos, se não temos, basta buscar em outros lugares, isto é uma coisa comum em todos os pólos de cinema. Até Hollywood faz isto.

         Como foi a produção do seu filme mais recente, “Nascimento, Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, que contou com a participação do personagem curitibano INRI Cristo?

Já está montado com uns 58 minutos. Foi feito em vídeo. Temumas partes que ainda não usei, que pretendo adicioná-las ao filme, para ficar um longa-metragem. Aí vou tentar descolar uma grana para passar para película nos Estados Unidos, que é bem mais barato e de melhor qualidade. Mas o “fazer a coisa” já é lucro. Só fiz uma exibição deste filme, no Cine Plaza, que tem a maior tela de Curitiba, para ver se a imagem e som resistiriam àquela projeção enorme. Cobrei entrada, até um preço meio caro para época, porque daí se o cara não gostasse já falaria: porra, você me fez pagar cinco paus para ver esta bosta!(risadas). Mas quem foi gostou, ninguém pediu o dinheiro de volta.

E por que a escolha do “ator” INRI Cristo?

Foi uma dificuldade falar com ele, não queria saber nada com televisão ou cinema. Eu fui franco. Falei que ia fazer um filme sobre Cristo e vou pegar os atores na hora, nas ruas de Curitiba, vou dar um ar popular para Jesus e como o senhor acha que é Cristo, gostaria de te convidar. Ele aceitou com a condição de filmar somente dentro do templo dele. Mas eu queria filmar fora também, porque ele tem lá uma antena parabólica onde havia pensado de fazer a cena da crucificação. Com o tempo ele foi tomando confiança e acabou saindo nas ruas para filmar e aceitou fazer a cena da crucificação na antena parabólica. Até falei para ele que se não gostasse do filme montado, eu desistiria da idéia.

Se ele não gostasse, você mudaria o filme?

Eu jogaria fora o filme mesmo. Em nenhum momento eu quis enganá-lo ou coisa parecida.

É importante contar histórias de Curitiba?

A gente é a cidade. O que você conta de você, conta da cidade. Fazendo um balanço das coisas que fiz e vou fazer, tudo é um documentário sobre Curitiba.

         O cineasta Sílvio Back diz que o público curitibano á autofágico com seus artistas. Você sente isso?

Isso é uma imbecilidade que não é só o Sílvio Back que fala. É que o Sílvio é um mau diretor (risadas). Os filmes dele não tem público… É muito comum as pessoas atribuírem à esta autofagia curitibana os troços deles que não dão certo. Eu não posso me queixar disto, meus livros todos foram bem vendidos aqui em Curitiba. Vocêsnão estão aqui fazendo uma entrevista com um diabo de um escritor curitibano? Então?!! Não existe esta autofagia. Existe por parte do poderes culturais oficiais. Curitiba tem um dos maiores escritores de todos os tempos, que é o Dalton Trevisan. Pergunte se algum destes governantes se interessam por ele. Não. Eles têm medo e detestam o Trevisan.

         Mas o Dalton precisou mandar seus livros para fora do Paraná para ser reconhecido.

É que Curitiba não tem editoras. Tem as oficiais, como a editora da UFPR, que editou um livro da Poeta Helena Kolody e não pagou os direitos autorais. Eles querem tudo de graça. Se você não tem uma editora firme, é difícil vender os livro. Eu sou contratado pela melhor editora do Brasil que é a Companhia das Letras e não tenho que me preocupar com estas coisas.

Mudando de assunto: e a sua época de televisão?

Eu sempre fui um homem de televisão. Desde 1960 eu trabalheiem televisão. Fiz tudo quanto é tipo de programa: telenovela, teleteatro, programa de auditório, fui produtor do Sílvio Santos… Depois me encheu o saco. Hoje televisão é profissão de publicitário e a publicidade não me interessa.

         Mas é a publicidade que viabiliza os programas de televisão.

É. Mas você não precisa se guiar pelas pessoas que estão pagando, pelos publicitários. Eu, como desenhava, já fiz trabalhos para publicidade quando a grana apertava. Mas a televisão como está hoje, governada por publicitários, não me interessa.

E a qualidade dos programas de televisão?

Bom, você assiste televisão e vê. A “qualidade” taí!

Decaiu a qualidade?

Programas bom e ruins sempre tiveram. Eu sou de uma época que a televisão era ao vivo, não dava para enganar. Na hora de entrar no ar tinha que ter alguma coisa pronta. Não me interessa isso de trabalhar para públicos determinados. Não sinto tesão de fazer estes troços.

         Você usa computador para escrever? Anota suas idéias em uma caderninho?

Eu tenho uma memória muito fraca. Então anoto algumas coisas para não esquecer. Neste último livro meu, O Meu 7º Diatinha anotado num papel uma coisa genial, que era o final do livro. Daquelas coisas que diriam “Nossa Valêncio, você é um gênio, como é que você bolou um troço destes?”. Mas não achei o papel e o livro e o livro acabou saindo com outro final. Se eu tivesse com o papelzinho aqui eu ia ler para você ver que coisa genial!

         A Narrativa visual, que é evidente nos seus livros, vêm do seu lado cineasta?

Quem disse isto foi o Décio Pignatari. O Wilson Martins disse que eu trouxe o visual para a narrativa. É difícil dizer de onde vem certas coisas. Como é que você vai explicar de onde vem o amor que você sente por uma mulher? Eu escrevi um livro, O Minotauro, de raiva das pessoas dizerem que a minha literatura é cinematográfica. Toda a ação se passa no escuro, ou seja, é impossível se fazer cinema sem luz. Mas assim mesmo duas pessoas fizeram roteiro em cima do livro.

Qual a sua opinião sobre a imprensa brasileira?

Eu sou um homem razoavelmente honesto. No tempo que eu trabalhava em televisão, nunca falei sobre televisão. Hoje, como trabalho na imprensa, não vou falar sobre imprensa. Acho que seria uma falta de ética. A imprensa não é uma coisa que me preocupe. Mesmo que ache defeitos, não sei como sanar.

Você gosta do apelido Frankestein de Curitiba?

É uma definição da minha obra. O Frankestein é isto: alguém que construiu uma obra com pedaços de outros cadáveres.

         Nota-se em textos seus a predominância do “eu-Valêncio Xavier”. Você se envolve com o que escreve?

Quando eu publiquei o “Mez da Grippe”, muita gente comentou e eu virei um “escritor” (gesto irônico), a crítica falou que escrever na primeira pessoa é literatura antiga. Então estou eu lá, ao lado de Machado de Assis e outros gênios da literatura. Aí passaram uns anos e saiu a revista, hoje extinta, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, uma edição sobre o Pós Modernismo. Diga-se de passagem que eu não tenho a mínima idéia do que é isto e nem quero saber, não está nas minhas preocupações… Mas escreveram lá que “no Brasil só existem dois escritores pós modernistas: Valêncio Xavier e Salviano Santiago”.

         Tem algum conselho sobrando aí para dar para o pessoal que está começando?

Se eu posso ensinar alguma coisa para alguém, seja escrever ou qualquer coisa assim, é que a gente deve fazer o que sabe e quer, o resto vem sozinho. Tenho amigos aí que querem escrever, mostrar quem eles são… Eu não quero mostrar nada. Só mostro a minha carteira de identidade quando um policial me pede ou para abrir crediário. Não pretendo mostrar quem eu sou, qual partido eu sou, que tipo de mulher gosto… Quero escrever para me divertir e se possível divertir os outros também.

 

Texto e reportagem: Luiz Andrioli

* Colaborou na entrevista Ricardo Sabbag.

Novembro de 1999

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PARA CADA BICICLETA, UM CARRO A MENOS NA RUA

segunda-feira, dezembro 1st, 2008

Gosto da idéia de marcar uma posição pacificamente, tal como faz esta turma da Bicicletada, que é um movimento presente em várias cidades no Brasil e no mundo. Há três anos eles estão promovendo manifestações em Curitiba, em passeios sob duas rodas que não contam com líderes. A organização é mínima, apenas um horário e local para se encontrar. E só. O resto simplesmente acontece… E aí, dezenas de ciclistas andam pelas ruas do centro da cidade ocupando o espaço que lhes é de direito. Para quem grita na buzina do carro e diz que a turma de ciclista atrapalha o trânsito, eles dizem “o trânsito somos nós”. E seguem, donos da consciência de que existe algo de muito errado com um sistema que privilegia veículos caros, pesados e poluentes. Noventa e cinco por cento do combustível usado por um carro vão para movimentar o próprio carro. O restinho é o suficiente para deslocar o peso de seu condutor. Ou seja, a Bicicletada vai na contra-mão de um sistema fadado ao desperdício. Pedalando e cantando, eles seguem firmes de sua proposta. Sou ciclista há vários anos, procuro não ter uma dependência tão grande do meu carro. Sempre que posso, como jornalista procuro dar espaço para este tipo discussão. Acho que já é hora de pensarmos mais a sério sobre o espaço que a bicicleta merece ter em nosso trânsito. É pelo bem de nós todos… Vida longa para a Bicicletada! No vídeo abaixo, a reportagem que fizemos para o nosso jornal aqui da RIC TV. Boas pedaladas!

 

http://www.youtube.com/watch?v=zz_Yot1QvnA

 

 

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