ELES AINDA ACREDITAM…
quarta-feira, novembro 19th, 2008

Um travesseiro na barriga e uma bela roupa alugada até que me fizeram um Papai Noel convincente. De um grupo de bons companheiros vieram os presentes que rechearam a bagagem do bom velhinho. Foi uma daquelas coisas boas da vida, quando a gente percebe que vários corações em sintonia podem fazer a vida um pouco mais feliz. A nossa e a dos outros. Saímos cedo com umas vinte cartinhas nas mãos e vários desejos a serem atendidos.
Os tempos andam difíceis, mas ainda tem gente que escreve cartinhas para o Papai Noel e as colocam nos Correios. Talvez a primeira sentença da frase seja justamente a explicação da segunda.
Nossa primeira parada foi em uma casa com de muro inacabado, com uma carcaça de carro enferrujada na frente. Ao ver o Papai Noel, saiu uma criança, saíram duas, saíram outras três… Uma escadinha na qual o menor se escondia de vergonha atrás do maior. E o último da fila tentava cobrir o rosto esgarçando a barra da camisetinha. O presente, pelo tamanho do embrulho penso que se tratava de um carrinho de controle remoto, era para um que não estava. Havia saído para brincar com um primo, algo assim. Deixamos com a mãe, que parecia sorrir o sorriso que o filho daria mais tarde. Os demais, nem triste ficaram. Ganharam balas, doces e a esperança de que outros bons velhinhos ainda poderiam passar por ali até o Natal. Aprenderam com a vida que o bom velhinho não esquece de ninguém, no máximo demora um pouquinho…
Afinal, essas cartinhas são tão mágicas…
Dois outros Natais se passam. Se fosse ficção, ficaria mais fácil dar uma coerência. Mas trata-se de vida e por isso procuro – em vão – explicações para o endereço da reportagem daquela sexta-feira de novembro. A mesma dificuldade de achar a casa, o mesmo botequinho com um luminoso quebrado na frente, a carcaça ainda mais enferrujada, o muro que fica em pé por milagre, a escadinha envergonhada (um pouco maior, apenas) vem me receber… A mãe, sim a mesma mãe que sorriu pelo filho, me pergunta receosa se teremos que gravar ali na frente de casa. Digo que não. E não mesmo, de coração. Olho para a mais velha da escadinha, certamente ela é o motivo da nossa reportagem. Garotinha tímida, pele morena escondida por um moletom que não combina com o calor do dia. Posso ver sua barriga de talvez pouco mais de cinco meses. Seis, na verdade, descubro depois. Peço para entrar e no caminho digo que não é adequado que os vizinhos escutem a nossa conversa.
Na sala, armamos a câmera de maneira a não identificar a garota. Quinze anos, até poucos meses atrás morava com a mãe e um padrasto. Ele abusava dela. Na última vez, bateu com fio de computador e cometeu a violência que resultou na gravidez. Ainda impressionado, só neste momento entendo que a garota é enteada da senhora que me recebe em sua casa. Casada com o pai verdadeiro da garota, que me diz na sala que por pouco não matou o sujeito que abusou de sua filha. “Mas o que adiantaria? Tenho outros para dar de comer”, conforma-se com palavras, mas não com o espírito. A madrasta, certamente muito mais mãe do que a outra, concorda e passa a mão no ombro do marido.
Ela procurou justiça. Assim como sorriu pelo filho que não estava ali há dois anos para receber o Papai Noel, da mesma forma chorou as dores da enteada e assumiu a indignação impotente do marido. Além de receber a filha do marido em casa, dando para ela o amor que deu para os próprios filhos, bateu em tantas portas quantas conhecia. Delegacias, núcleos de proteção, conselhos… Nada foi feito. O agressor, ainda solto. A gravidez indo para o final e a garota tentando se conformar de uma maternidade avessa a sua vontade. “Imaginava que seria mãe por amor”, diz a menina. “Qual o nome que você vai dar para ela?”, pergunto. “Isabeli Vitória. Vitória é o nome da minha avó”, diz ela enquanto me mostra no sofá uma dezena de sabonetes que ganhara das amigas, além de algumas roupinhas para um enxoval que começa a ser montado. Sinto-me durante a reportagem apenas escutando as dores da menina, parece que o microfone me foi tirado das mãos e a câmera foi deixada em um canto da sala. Elas querem falar. E eu quero tentar entender, um entendimento muito além do que o repórter costuma exercitar, uma compreensão que só um ser humano pode alçar. E neste encontro de desabafo e tentativa de compreensão, aquela senhora que sente por seus filhos espera do repórter o que até então ninguém havia lhe dado: justiça, conforto, amparo…
Na saída, confesso para a mulher o papel que eu desempenhara há dois anos, escondido por detrás da barba branca. Sorrimos do inusitado. Penso comigo que gostaria de deixar a alegria que proporcionamos para a família na primeira visita. Desta vez, não tem presente, não tem doces, não tem o velhinho simpático. Agora somos apenas parte de um espetáculo que vai ao ar em menos de dois minutos no jornal dia seguinte. E só. No dia seguinte tem mais, sempre tem mais. No carro, a mulher que sente pelos filhos diz que os pequenos já estão escrevendo as cartinhas para o Papai Noel. O Natal está próximo e eles ainda acreditam.
Luiz Andrioli
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