A POLÍCIA QUE O CIDADÃO MERECE
segunda-feira, setembro 29th, 2008

isso não é um coturno
Pode me perguntar sobre as últimas promoções do mercado automotivo. Eu sei de tudo. A contra-gosto, mas sei. Quem me informa é um sujeito vestido de palhaço que imita Silvio Santos, Lombardi, vendedor de teleshop e o Dino do Mamonas Assassinas. Tudo na mesma frase, é incrível. A performance acontece sábado e domingo na loja de carros ao lado do meu prédio. O sistema de som potente do comércio se encarrega de fazer com que ninguém fique sem saber das “quentinhas” do setor.
Ao que me consta, existem restrições para o uso de caixas de som na calçada, isso – é claro – caso alguém ainda tenha aquela velha mania de respeitar as leis. Só estou precisando informar isso para as nossas autoridades. Ligo para o atendimento telefônico da prefeitura pedindo uma fiscalização com decibelímetro, que é aquele aparelho que mede a quantidade de ruído. Sou informado que isso só é possível durante a semana, ou seja, quando o artista que vende carro aos gritos, tal qual um feirante, não está trabalhando. Sou aconselhado então a procurar a PM. Ligo e me decepciono. Barulho no ouvido de quem “se atreve” a descansar de dia nunca é crime suficiente para mobilizar sequer uma viatura. Brinco e digo que vou descer e quebrar no chute a caixa de som. Pergunto se destruição de patrimônio particular seria suficiente. Seria e eu poderia ser preso. Desisto da idéia e desligo, já que mal consigo escutar a resposta do atendente. Agora o palhaço tenta vender um financiamento em 36 vezes com a voz do Faustão.
Tento abstrair o show na esquina. Ando pela rua e encontro a cena que há anos sonhava. Guarda Municipal e Polícia Militar juntas com suas viaturas estacionadas no terminal. E justamente a uma quadra de onde o “rei da voz” atacava com seus “ô louco, meu! É muito barato!”. Educadamente, pergunto aos agentes da Guarda se é possível que eles façam respeitar o limite máximo de 55 decibéis. Eles dizem, apontando para a viatura da PM, que isso é problema da PM, resposta que já esperava. Ando quatro passos e me dirijo aos militares com a mesma queixa. E sabe qual a resposta? “Isso é coisa da Guarda Municipal”, dizem os fardados com o dedo apontado para os outros.
Bom, até aí, me vejo em uma narrativa digna de Frans Kafka. Um absurdo de tal tamanho que se contado como realidade, pode passar por mentira. Corro o risco. Passados alguns dias, até me divirto ao relembrar um agente de segurança jogando a batata quente para o outro. Daqui pra frente, saio do absurdo que permeia a fronteira da responsabilidade entre governos estadual e municipal. Agora despenco na truculência contra o cidadão praticada por quem deveria nos proteger.
- Mas eu estou vendo o crime, está ali, são só alguns metros. Eu acho que o senhor tem a obrigação de atravessar a rua e registrar o flagrante – questiono o policial militar, que mal se dá o trabalho de baixar o vidro para falar comigo.
- Eu não vou. Não tem motivo para eu sair daqui e fazer o que você está falando – responde secamente o PM.
- Mas que segurança é essa que você está oferecendo?
- Esta é a polícia que o cidadão merece – responde o outro policial que estava no banco do passageiro da viatura, com um sorrisinho sarcástico no canto da boca.
Desisto. Volto para meu apartamento ao som de “ilarilariê, oh oh oh” embalando a mega promoção do Sedan mais vendido da categoria.
Se fosse apenas um policial sendo grosseiro e de corpo-mole com seu trabalho, eu até ficaria mais tranqüilo. Seria pessoal e não institucional. Mas eu simplesmente desisti de avançar na conversa com o fardado ao perceber que a resposta dele é emblemática. Voltemos só um pouquinho no tempo. Há alguns meses, como repórter de televisão que sou, gravei uma matéria sobre um motorista que foi preso pela PM ao estacionar o caminhão em um local proibido. Moradores que viram a cena denunciaram abuso de autoridade e truculência contra o trabalhador, que chegou a ser retirado a força do veículo, além de ser algemado e agredido pelos policiais. Populares filmaram a cena com câmeras amadoras e celulares. Eu vi as imagens e confesso que fiquei chocado com a atitude dos policiais, mas fiquei absurdamente estarrecido com a resposta que um deles deu para o povo que questionava a atitude que os militares tomaram:
- Esta é a polícia que o cidadão merece.
Exatamente a mesma frase que este escriba ouviu um ano depois quando pediu para uma autoridade verificar um flagrante de desrespeito à lei. Tenho razões suficientes para acreditar que este pensamento circula entre os quartéis, que seja uma destas frases que os colegas de coturno usam para se defender de críticas a atitudes altamente criticáveis e criticadas.
Aprendi com o meu humilde e braçal trabalho de repórter, que contra a ignorância não existem argumentos. O silêncio ao menos evita conflitos desnecessários. De resto, é confiar no crescimento do Homem e torcer para que a lógica evolutiva se aplique também para quem se considera acima de quem não porta uma arma oficial do Estado.
Em casa, liguei para o 190 e ainda tentei novamente pedir uma viatura para verificar o som que até murchava as plantas da minha sala. Perguntei se seria atendido. O atendente não disse nem que sim, nem que não. Pela janela, vi que não.
Se eu fosse o único a reclamar da morosidade deste tipo de atendimento, até me resignaria. Aliás, em tempo, devo me retratar. Já vi uma viatura da polícia militar chegar em pouquíssimos minutos após ser chamada. Foi há poucas semanas, quando um oficial da PM (sem se identificar como tal) considerou que minha equipe de reportagem não podia ficar no estacionamento de um órgão público, onde nós aguardávamos a confirmação de uma informação. Sem argumentos legais para expulsar a imprensa do local (repita-se: público), chamou então uma viatura, que chegou numa rapidez de fazer inveja para qualquer país desenvolvido. Fiquei boquiaberto, ainda mais quando dois policiais desceram portando armas na mão, fazendo o convite para que saíssemos imediatamente do estacionamento, sob risco de sermos presos.
Como já disse, contra a ignorância, não há argumentos. Penso que – se é contra o cidadão – toda a rapidez e eficiência; se é a favor, toda a morosidade e arcadismo truculento. Esta é a polícia que o cidadão merece.
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