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UMA ESCOLA QUE RESPIRA LIVROS

sábado, maio 31st, 2008

 

O Tatuquara é um daqueles bairros que o curitibano considera como muito longe. Lugar de gente esforçada, povo que conseguiu com muita mobilização algumas melhorias, que – mesmo assim – ainda é muito carente. Entre as benfeitorias que chegaram por lá, está uma escola chamada Vila Zanon. É uma casa que fora construída emergencialmente, conforme me conta a diretora, após uma série de protestos dos moradores. Eles não estavam satisfeitos com o fato dos filhos terem que andar de ônibus escolar para freqüentar aulas em outros bairros. Bateram o pé (nas ruas sem asfalto nem antipó) e conseguiram o que a prefeitura chama de “escola emergencial”. Uma escola feita com uma certa pressa para atender à reivindicação popular. São oito salas de aula para atender pouco mais de duzentos alunos dos primeiros anos do ensino fundamental.

A escola chama a atenção de longe. Entre casas simples, algumas mal acabadas, comércios humildes, está o prédio pintadinho de verde, com um jardim bem cuidado por fora. A construção é de madeira, com uma simplicidade agradável que lembra até uma casinha de vó. A comunidade cuida da escola, preserva o ambiente que é tão bem usado pelos filhos, diz a diretora Rosana Almeida, minha anfitriã. Se por fora, a Vila Zanon já encanta, por dentro o que se encontra é no mínimo fascinante.

 

As paredes têm uma vida que pouco se encontra em outros espaços do gênero. Praticamente todas têm livros que ficam a disposição dos alunos. Corredores, pátios, salas de aula… Por onde você passa, tem livros. No recreio, as crianças dividem as brincadeiras, as correrias, com alguns momentos de leitura. Outras preferem ficar sentadinhas viajando nas histórias. São oitocentos títulos. E tudo isso nasceu de uma dificuldade. Como a escola foi construída as pressas há quatro anos, não sobraram condições financeiras para fazer uma biblioteca. O que seria um problema para a formação dos pequenos leitores, acabou gerando um insight para os diretores do espaço. Eles arrumaram dinheiro, compraram vários livros e receberam outros em doação. Sem uma biblioteca, resolveram então fazer de toda a escola uma grande prateleira de livros, deixando todos os exemplares a disposição das crianças. Os alunos podem ler no local ou ainda levar para casa, tal como funcionaria em uma biblioteca normal. A diferença é que não existe nenhuma barreira, a biblioteca não é “aquela sala isolada no fundo da escola”. As crianças crescem cultivando uma saudável intimidade com o livro. E como lêem!

 

Como se isso já não fosse uma boa notícia por si só, ainda tem outra coisa. Uma vez por semana a escola para e durante uns vinte minutos e todos ficam naquele silêncio gostoso de quem está lendo. Alunos, professores e funcionários, todos iguais perante o sagrado hábito da leitura. Tem funcionário que até leva livro pra casa e está formando outros leitores, pessoas que não convivem na escola que respira livros, mas que acabou sendo tocada a distância pelo grande espírito da literatura.

 

E pensar que tudo nasceu justamente da falta de uma biblioteca!

 

 * A reportagem foi ao ar no RIC Notícias, da Rede Independência de Comunicação, afiliada da Rede Record do Paraná. Exibção em 31 de maio de 2008. Imagens de Nilson Machado, Reportagem de Luiz Andrioli e edição de Manoel Costa Curta.

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