Archive for abril, 2008

FÉRIAS EM ABRIL

segunda-feira, abril 21st, 2008

 

A vida fica um pouquinho mais devagar quando a chuva bate na janela

É um tec tec tec as vezes ritmado, as vezes desordenado

Tal qual férias em abril

Uns correm, cansados

Mal respiram, apressados

Eu observo

Sentado, deitado

Admirado

 

 

 

Parar enquanto os outros continuam é realizar

(ao menos em parte)

o pedido do poeta de cavanhaque

Parem o mundo que eu quero descer

Ok, ninguém parou

Mas ao menos abriram a portinha para mim

Desci, vi e gostei…

Se não passar outro ônibus, to bom de ficar por aqui mesmo

 

 

 

Antropólogo do cotidiano (dos outros)

Sociólogo empírico

Analista do cantinho da janela

Chef da alta gastronomia da trivialidade

Fiscal da pontualidade do acendimento do poste da esquina

Troquei a escada pelo elevador – quando é pra baixo, porque pra cima cansa

O ócio é incrível!

 

 

 

As estatísticas:

A geladeira foi aberta 67 por cento mais vezes do que em dias normais

A navegação na internet três vezes mais fútil do que o habitual

O tempo de espera entre o bom dia trocado com o porteiro ficou com um atraso  acima do normalmente encontrado

Algumas plantas foram aguadas mais do que o necessário, os livros agora estão em ordem de assunto, as meias dobradinhas tal qual na loja, não existe relógio eletrônico piscando por falta de ajuste

E que emoção é ver um cachorro correr no parque e lamber a cuia de chimarrão de um desavisado…

É, quatro semanas de férias podem fazer um homem realmente se envolver com os problemas do mundo…

 

 

 

Tec tec tec

Os pingos batem e escorrem

 

 

 

Luiz Andrioli

 

 

 

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DA SÉRIE MEGALOMANIA FALADA, ESCRITA E TELEVISIONADA…

segunda-feira, abril 21st, 2008

Entrevista ao Jô Soares

A platéia está um pouco fria. Uma série de cinco entrevistas com políticos, matemáticos e coisas do gênero deixou um silêncio no ar. Sou chamado. Batem palmas esparsas. Ah, no caso, sou um artista de rua, trabalho em Parati, viajo muito, faço pinturas que lembram as rupestres, mas uso como matéria prima resto de comida. Minha arte apodrece na casa das pessoas, diz o apresentador. Todos riem puxados pelo animador do auditório. Eu fui descoberto nos Estados Unidos após ter uma tela comprada pelo Spielberg.

Durante a entrevista, faço um ar displicente. Falo de minha relação com Jack Nicholson, Uma Thurman… Tudo na mais completa normalidade. Clientes que viraram amigos. Minha matéria prima para os quadros vem do próprio jantar (ou almoço) que compartilho com os clientes. As sobras me servem como a argila serviria para um escultor tradicional. O apresentador me diz que em seu caso não haveria obra de arte, já que não deixaria sobras. Eu digo que no caso a obra de arte pode ser ele, com a vantagem de poder disfarçar o cheirinho! Todos riem. Sucesso.

***

Minha próxima será no Actor´s studio. Um ator que conseguiu a notoriedade após provar que as modernas técnicas de enriquecimento de urânio têm como base os fundamentos da memória emotiva descrita por Constantin Stanislavski. Um gênio que poderia usar o talento para a guerra nuclear, mas preferiu colocar seu talento em favor da interpretação. Dois filmes. O primeiro, ao estilo filme B com dificuldades de distribuição. O segundo, feito com um orçamento de cem mil dólares (o dobro do primeiro), mas que faturou trinta e cinco milhões (cem vezes mais que o primeiro). Digo que no momento meu principal projeto é comprar a coleção de Rolls Royces que pertenceu ao Bhagwan Shree Rajnesh. Todos dão cênicas gargalhadas. Eu digo: é sério. E é. Silêncio. Sucesso.

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UMA GUERRA POR UM PENTE

segunda-feira, abril 21st, 2008

Oito de dezembro de 1959. Antonio Haroldo Tavares, subtenente da Polícia Militar compra um pente e pede uma nota fiscal. O comerciante, o sírio-libanês Ahmad Najar, se nega a emitir o documento, talvez pelo irrisório valor, quinze cruzeiros. O policial bate o pé em nome de seu direito (e dever) de contribuinte. Não era uma questão de valor financeiro, mas sim, de princípios! O clima de tensão contamina os quatro funcionários da loja que ajudam o patrão a jogar o “problema” porta fora. No entrave corporal, Antonio tem uma perna fraturada. Cerca de trinta pessoas que assistem a briga se revoltam e iniciam uma depredação do Bazar Centenário. Era o estopim para a Guerra do Pente – Talvez a maior revolta popular já vista na capital paranaense. Mas a real motivação para a “barbárie urbana” que estava por acontecer ultrapassava os limites curitibanos.

O Brasil vivia uma época esperançosa, pelo menos era o que dizia a propaganda oficial. Juscelino Kubitschek, com a promessa dos cinqüenta anos de progresso em cinco de governo, buscava convencer a população do desenvolvimentismo puxado pela industrialização. O governo promovia o consumo com olhos na arrecadação. O cidadão era incentivado a pedir notas-fiscais e trocá-las por cupons que davam direito a participações em sorteios de prêmios. A campanha “Seu Talão Vale um Milhão” era uma mania brasileira que virou até tema de marchinha de carnaval em 1960.

Mas nem tudo se resumia a confete e serpentina. Os altos índices de inflação preocupavam os pais de família. O momento também era de tensão política. Dias antes militares haviam iniciado um movimento contra o governo JK, conhecido como o Levante de Aragarças. O movimento se apagaria poucos dias depois, mas algo de instável permaneceria no ar.

Voltemos àquela terça-feira, fim de tarde em Curitiba. O Bazar Centenário está com o estoque jogado na rua. O movimento cresceu e já soma duzentas pessoas. Nesta altura ninguém mais se importa com o comerciante que foi levado preso pela polícia ou com o fardado que seguiu de ambulância para um hospital. A região da Praça Tiradentes, reduto de vários comércios de sírio-libaneses, vira um palco de vandalismo. Lojas são invadidas, saqueadas, queimadas… Quem tem tempo, baixa as portas. Quem não tem, luta sem sucesso contra uma massa ensandecida. A multidão ganha o reforço dos que saem de seus serviços. O ataque ao comércio já não é o suficiente, a ira cai sobre os prédios públicos. Mostrando o caráter anárquico do quebra-quebra, onde poucas regras são estabelecidas tampouco seguidas, os revoltosos atacam até os carrinhos dos vendedores ambulantes de frutas.

Somente seis horas depois a coisa começou a se acalmar em Curitiba. A Polícia Civil contabilizou dez feridos, ironicamente oito deles eram policiais. De populares, mais de trinta presos, alguns com objetos furtados. Correu a boca pequena que o “protesto” era coisa de estudantes. A União Paranaense dos Estudantes foi a público lavar as mãos, atitude endossada em editorial de um dos jornais da capital. O periódico trazia em sua opinião que os “cabeças das desordens” eram “desocupados ou operários”.

O segundo dia

Logo cedo, enquanto alguns ainda saboreavam as manchetes sensacionalistas do tumulto, uma agitação no centro da cidade anuncia o segundo dia da Guerra do Pente. O comerciante Salim Mattar, da Casa Três Irmãos, ao ver a onda de depredação se aproximando, sacou de um revolver disparando cinco tiros para cima. Uma tentativa desesperada já que nem mesmo os tanques do Exército que foram deslocados para o front deram conta de amedrontar a população. Alguém tenta aproveitar o embalo para destilar um discurso político, o que é de pronto repelido – por pouco não sobrou uns bons sopapos para os oradores de plantão. O momento era de ataque ao patrimônio, pura catarse… Nada de teoria! O tumulto só terminaria na chegada da noite. Como motivo algo bem curitibano: uma chuvinha típica de não deixar alma viva na rua.

Na quinta-feira, as análises colocavam mais polêmica sobre os reais motivos da Guerra do Pente. Alguém comparou a insurreição curitibana ao Levante de Aragarças. Um famoso criminalista da época creditou a violência ao alto custo de vida – um desabafo do povo. “O problema é fome”, sentenciava outro. O fato é que algo acontecera além da previsibilidade costumeira do curitibano naqueles dois dias. Um dos grandes jornais da capital paranaense trouxe na capa: reestabelecida a ordem e a tranqüilidade. Ironicamente, pouco acima da manchete um anúncio em letras garrafais continuava a afirmar que “Seu Talão Vale um Milhão”.

Texto originalmente publicado na revista “Aventuras na História”, edição 17, janeiro de 2005.

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