Este escriba procura sanar seus maus sentimentos imprimindo palavras contra um papel. É a Litera-cura. Dentre algumas boas porções de ruins desejos, está a inveja que tenho dos músicos.
Sei que jamais alguém vai ler um texto meu enquanto beija uma mulher por quem está apaixonado. Casais não transarão ouvindo o que um escritor produz. Páginas dos meus livros não embalarão noivas entrando na igreja. Amores rompidos não terão como trilha sonora meus dramas escritos. Grandes festas jamais serão regadas a vinho e narrativas romanescas. Um conto não serve para acalentar a dor do abandono no balcão de um boteco. Crônicas não acompanham a solidão dos motoristas nas longas viagens. Pouco provável que as amigas de escola compartilhem em seus Ipod´s um poema tão delas como fazem com suas playlists.
A música chega sem convite onde a Literatura precisa reservar estadia; ela está até nestas letras insistentes e sem destinatário que arrisco agora (a saber: The Doors com “Roadhouse Blues”). Escrevo com os ouvidos sendo marcado por arranjos, ritmos e melodias. Mesmo elas, as músicas, colam nestas criações que sempre vão perder na disputa dos ouvidos e sentimentos.
No dia em que a Literatura virar música, seremos alçados ao céu. Anjos falam na língua das canções. Para mim, mortal escritor invejoso, fica a sorte de poder apurar corações.
Luiz Andrioli
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novembro 22nd, 2011
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foto: reprodução Facebook
Toda vez que você parar na frente da TV para assistir uma imagem que mostre o calor da violência, lembre que tem um ser humano atrás daquela lente. O cinegrafista da Band não morreu atingido apenas de um tiro de fuzil que atravessou seu corpo. Ele foi uma vítima, além da evidente violência, de um tipo de jornalismo que nós criamos e consumimos. Em alguma instância sabemos dos nossos erros, mas como fazer de outra forma?
Gelson Domingos da Silva merece todo o nosso respeito por ter se empenhado até o último momento para trazer a melhor imagem. Porém, todos nós o colocamos no lugar errado. Quem pautou aquela equipe de reportagem foi o gosto médio que nos faz esquecer que a violência é um problema amplo. A função da imprensa é cobrar soluções. Não é do meio do front de batalha que aparecerão as respostas para os conflitos entre traficantes e sociedade, ente milícia e polícia. Um profissional como o Gelson poderia estar trazendo imagens para a emissora que não apenas suprissem o nosso desejo mórbido de ver a vida (dos outros) em risco, papel tal qual um filme pode cumprir. Tropa de Elite está aí para nos provocar sensações do mesmo nível, com toda a segurança e potencial crítico que a ficção proporciona.
A violência existe e eu não preciso ver ao vivo para acreditar. O problema, parte dele ao menos, é que estamos em uma guerra pela atenção do telespectador. Nosso cliente tem em mãos um controle remoto mais sensível do que o gatilho do fuzil que disparou a bala contra o cinegrafista. Ao menor sinal de afrouxamento nesta corda tensa que une nossas reportagens ao interesse do público, acende uma luz ameaçadora nas redações. Temos medo de que os nossos índices de audiência respondam negativamente caso deixemos de acompanhar o calor das balas. No fundo sabemos que este tipo de abordagem não vai trazer discussões que realmente avancem no processo de análise das verdadeiras causas da violência.
Porém, é tempo de admitir, entramos em um beco sem saída. Assim como o cinegrafista ficou encurralado no meio de um tiroteio, nós jornalistas também estamos no fogo cruzado. E o pior: nós mesmos criamos este bang- bang. Se deixarmos de dar uma imagem quente como a que o Gelson queria trazer para a sua emissora, a concorrência colocaria a mesma ação no ar. É medo do outro que também está com medo da gente! Nós, profissionais da informação, nos metemos nestes vazios, perseguindo um risco que não nos cabe. Polícia tem preparo (ao menos se espera que tenha) para enfrentar o crime. A nós, jornalistas, cabe a análise, o debate, o questionamento. Jogar uma equipe entre fuzis é desperdiçar uma força de trabalho que poderia ser mais bem usada em outras abordagens. Uma troca de tiros não deveria servir de espetáculo.
Ao olhar este beco sem saída em que nós da imprensa estamos, fico aqui pensando quem será o Capitão Nascimento que vai nos resgatar desta troca de tiros que provocamos? Seria possível uma trégua entre os próprios veículos? Estamos dedicando tempo, talento, dinheiro e outros recursos para alimentar um tipo de jornalismo que valoriza mais o risco do profissional do que a reflexão provocada.
Talvez o nosso herói, quem vai nos salvar deste fogo cruzado da concorrência, seja justamente o controle remoto. Fico aqui torcendo para que o telespectador, cada vez mais atento ao que deve de fato ser colocado em pauta, sinalize trocando de canal quando o sensacionalismo balear a reflexão.
Por outro lado, é hora também de nós profissionais das câmeras assumirmos nosso papel verdadeiro e propormos uma trégua. Ou até mesmo arriscar perder batalhas, abrindo mão de alguns pontinhos no IBOPE com este tipo de espetáculo da violência. Com a bandeira branca levantada, talvez possamos retomar o propósito que nos faz empunhar microfones, gravadores e blocos de anotações. Praticar jornalismo à moda “Tropa de Elite” com balas de verdade tirando vidas não é o caminho mais inteligente.
Luiz Andrioli é escritor e jornalista. Trabalha como editor-chefe de conteúdo na RICTV Record.
Em tempo: Paulo Henrique Amorim também se posicionou sobre o assunto no seu blog. O site Observatorio da Imprensa repercutiu o assunto com a opinião do Eduardo Maretti.
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novembro 8th, 2011
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A Virada Cultural de Curitiba mais uma vez mostrou que o povo merece ser bem tratado, desta forma, sempre vai retribuir na mesma moeda. Todos os shows que acompanhei foram incríveis, muito bem produzidos e atraíram gente com vontade de curtir com respeito e educação. Ver e sentir o cidadão ocupando o seu espaço me faz amar ainda mais nossa capital.
Sugiro apenas nas próximas edições um “up grade” de infraestrutura. Não bastam apenas boas atrações.
Comida, diversão e arte, não? Onde estavam as barraquinhas de comida? Só os bares da região não davam conta de garantir o serviço de lanches.
Táxi para voltar pra casa então, só depois de esperar meia hora em uma fila gigante! Os ônibus, ao que me parece, também não foram reforçados para a madrugada. Se a gente pensar que a Virada deve também atender quem mora mais longe, é fundamental a circulação do transporte coletivo durante todo o evento.
Porém, ainda estamos aprendendo a lidar com um evento deste porte. Feitas estas ressalvas, ficam meus parabéns para os organizadores. Acredito que nós vamos curtir uma Virada Cultural em 2012 ainda mais divertida. Estou até pensando em subir na estátua no Barão do Rio Branco na próxima, assim como este rapaz flagrado pelo fotógrafo José Roberto Silva e publicado pelo site do Zé Beto (www.jornale.com.br/zebeto). O Róger, do Ultraje a Rigor, chegou a brincar com o cara: “Quero ver como você vai descer daí!”. Fácil: ele se jogou. Virada Cultural é isso. Cada um se joga como pode!
Fotos: José Roberto Silva (www.jornale.com.br/zebeto)
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novembro 7th, 2011
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A hastag #poemas_emliberdade foi criada para brincar de ser breve. Vez ou outra este escriba deixa escapar insights, os quais falam (ou pensam falar) por si. Normalmente são encontrados no @luizandrioli e / ou no meu perfil no Facebook, sem data marcada.
Abaixo seguem os mais legais que já foram visto circulando na nuvem. Boa leitura!
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Poesias? Não faço. Eu as cometo. Escrevo como quem se desculpa
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Afundo o rosto no travesseiro. Cansaço marcado em 3d. Amanhã repetirei os erros para me encaixar no conforto da noite.
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Vivia de sobras, restos de letras. Lia compêndios literários, escrevia resenhas. A diferença: mais valia, sustento da alma.
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Só no jantar de casais, apelava para o garçom. Esvaziava o copo para ser servida. Queria doses de compaixão.
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Prometeu amar a cobradora ruiva até o terminal. Amor perfeito. A única dor foi o tranco na passagem da roleta.
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Na sala, ela só come manga de garfo e faca. Na cozinha, perde o pudor: passa a língua na lâmina e chupa o sumo.
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Solidão do aposentado na praia: fora da temporada, só fica o zelador do prédio. Até o mar vai embora.
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Há muito tempo só acredito nas emoções que invento. Doravante, me traio a cada instante.
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Não é uma questão de entendimento. É de sentimento. Entende?
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#poemas_emliberdade volta a qualquer momento! Apareça!!!!
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outubro 22nd, 2011
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Demais ingênua, quase bobinha a iniciativa da Prefeitura de Curitiba de fazer uma Ciclofaixa em um dia determinado no centro da cidade. Isso é tratar a bicicleta como instrumento de passeio, quando ela pode ser muito mais do que isso. A preocupação deve ser no sentido de dar condições para o cidadão se deslocar com segurança de casa para o trabalho, escola e outros compromissos. Quem usa bicicleta quer tranquilidade e respeito todos os dias.
Um ciclista na rua é um carro a menos no trânsito, um assento livre nos coletivos e por aí vai. Muitos trabalhadores têm optado pelo pedal para não gastar dinheiro com o transporte coletivo. A parte dos motivos que levam cada vez mais gente para o transporte sustentável, reforço que eles (os motivos) passam longe deste “fru fru” que é organizar um passeiozinho ciclístico em dia determinado como se isso fosse uma política séria. Não é.
Encarar a bike como brincadeira de fim de semana é praticamente um desserviço para o trânsito cada vez mais caótico da nossa capital.
Circuito Ciclofaixa de Curitiba: tô fora! Quero é Ciclofaixa de verdade!
Política para a inserção dos ciclistas com segurança nas nossas ruas tem que ser pensada diariamente. Não é trabalhinho de fim de semana, ok senhores gestores?
Link para o site da prefeitura com informações da Ciclofaixa de domingo.
ATUALIZAÇÃO EM 22 DE OUTUBRO DE 2011
Prefeitura admite falhas no projeto Circuito Ciclofaixa de Curitiba.
ATUALIZAÇÃO EM 24 DE OUTUBRO DE 2011.
Cicloativistas fazem protesto durante o dia da Ciclofaixa.
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outubro 20th, 2011
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Da janela do carro fechado, uma infância ali fora. Longe de sua casa, vende um simulacro, este menino. Oferece para os carros a lembrança que sequer conheceu. Indiozinho sem pátria, quer me fazer ficar com um chocalho, brinquedo que não lhe faz parte. O objeto é colorido, seu olhar é negro, sua camisetinha tem a estampa do Shrek, desenho que também não lhe pertence. O garoto bate duas vezes na minha janela, grita o preço. Está na margem da rodovia (ou da vida?). Para os próximos carros vai oferecer um cesto de palha, um cocar, um arco e uma flecha. A mãe cuida do próximo a me encontrar daqui uns anos por entre o vidro levantado, mais escuro que a pele suja dele, protegido eu que estou (e estarei) pelo insulfilme. Meu simulacro de vida, também um menino sem saber o que e como pagar aqui de dentro. Quanto custam estas infâncias jogadinhas na beira das estradas?
Curitiba, 12 de outubro de 2011.


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outubro 12th, 2011
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Foto: Luiz Andrioli
Existem amores que partem sem dar o endereço. Mentem, na verdade. Dirigem fingindo uma segurança que só tem os que sabem o destino. O amor nunca imagina onde vai acabar.
Outros chegam sem dar uma ligadinha antes.
Há amores que vivem em cidades diferentes sem ter grana para bancar o pedágio. Outros fazem da vizinhança sua mais possível distância.
Têm velhos que insistem em rodear nossas sombras e por vezes fazem um belo par com os novos amores que se aproximam.
Há amores que ficam na fila da lotação e jamais sobem nos veículos. Outros que apenas andam nos coletivos e nunca descem. Poucos pagam passagem, muitos querem só a viagem. Alguns dos meus amores ficaram indecisos entre descer no ponto correto ou deixar se levar até o fim do trajeto. Como se ponto final houvesse…
Queria, por vezes, amores em cima dos pedais da bicicleta do padeiro: acordar antes de todos com o cheiro de pão quentinho pedindo o carinho da manteiga deslizando pelas suas frestas.
E esses amores que jamais estacionam? E os que param nas vagas de deficientes? Sabe dos amores que não admitem suas deficiências?
Conhece amores que não sabem fazer balizas? Sei de amores que ficam parados no sinal para sempre. E outros que deixam os pneus murcharem na garagem. Contaram-me de alguns que derraparam na curva da solidão.
Eu sou daqueles que liga o GPS para se perder entre as ruas esburacadas vítimas do nosso próprio vandalismo. Quem disser que cuida do amor, mente também. A gente simplesmente trafega por ele. Se cuidar da estrada, corre-se o risco de levar o carro nas costas para evitar o desgaste dos pneus. Meus amores nunca foram assim. Borracha e asfalto no atrito constante, buscando velocidades extremas nas retas e o limite possível nas curvas fechadas da serra do mar. Amor desafia o velocímetro. Amor arranca o bloco de multas do bolso do guarda. Amantes fazem coraçãozinho com as mãos para a câmera do radar. Meus amores pedem que alguém em sentido contrário pisque os faróis avisando das blitzes nos caminhos.
Nunca exigi destes meus senhores amores certos pudores. Sempre transcendi como os transgressores.
Aos amores, nunca dei os devidos valores.
Sempre ficamos nos devendo favores.
Assim foram os meus amores, hoje esquecidos em lojas de penhores.
Luiz Andrioli
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setembro 30th, 2011
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No grupo Escolar Santa Rosa não tinha pátio coberto
Quando chovia as crianças ficavam sem recreação
Marcelo, cabelo crespo castanho, ao acordar contava as nuvens
“Pai, qual é a previsão do tempo?”
Melissa, menina das bochechas rosadas, tinha uma certa atração por dias chuvosos
No dia da pátria
Marcelo desenhou numa folha de caderno a bandeira do Brasil
E entregou para Melissa
Ela devolveu o desenho
Com um coração que desenhou atrás
Nos dias de chuva, as crianças ficavam tristes
E sem recreação
Melissa e Marcelo, olhavam para a janela, sorrindo
A chuva caindo na beira da calha
Um dia um trovão assustou a todos
De imediato Melissa segurou a mão de Marcelo, que sorriu enrubescido
Tia Francisco olhava os dois tão atentamente saudosa
Pensando que passara a vida inteira
Procurando alguém que com ela olhasse a chuva cair na calha.
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Luiz Andrioli (poeminha escrito lá por 1992, mais ou menos. Desenterrado em 7 de setembro de 2011, um dia de chuva…)
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setembro 7th, 2011
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Tia Júlia ficou viúva aos 71 anos. Passou a vida inteira com meu tio, um casamento que chegou perto do cinqüentenário. Cumpriu o luto de um ano e pouco e logo recebeu flores no portão de casa. Era de um colega que trabalhava como empacotador do mercado do bairro. Passaram a se “freqüentar”, como ela mesmo nos dizia. Ele, um filho de imigrantes poloneses, olhos clarinhos que só vendo. Quando via minha tia chegando, os dois pontinhos quase que pulavam pra fora das rugas de tanto que se agitavam. Ela já fazia um tipo discreta, mas sempre mantinha no armário um pacotinho de chá de cidreira, o preferido do pretendente.
Em três meses de conversa assumiram o namoro para a família. Ele era também viúvo há uns três anos. Vivia longe dos filhos, mas não sozinho. Tinha os amigos do mercado e três cachorros de rua que recolheu. Minha tia nunca gostou de cães, mas aceitou que as visitas vez ou outra tivessem uma companhia a mais. Até ração servia. Eles não se combinariam em qualquer outro momento da vida. Tia Júlia fora professora de piano, bailarina clássica antes disso. Depois que se casou, fez magistério e bordado. Dava aulas durante a manhã e de tarde cuidava de um grupo de voluntárias em uma creche. Nunca precisou de dinheiro, na verdade. Meu tio gostava de a ter envolvida com o que lhe fazia feliz. Já Antônio foi jogado em uma construção ainda aos quinze anos. Aprendeu a ler para saber qual a mistura certa de água no cimento que vinha escrita no saco da Votorantin. Chegou a mestre de obras depois de vinte e poucos anos de firma. E não passou disso. Filmes, viu um ou outra vez no cinema quando era barato. Dançar? Só no fim de ano quando bebia. Aposentado precisou continuar fazendo bicos para pagar o aluguel e os remédios.
Eles passariam algumas vidas sem se encontrar. Não fariam a menor falta um ao outro. Mesmo assim, decidiram se amar. Tudo começou quando a tia fez uma compra maior do que podia carregar. O velho piscou para o dono do mercado e disse que ia ajudar a cliente a levar os pacotes até em casa. Ela disse que não precisava, já fraquejando os braços em direção ao cavalheiro. E aí vieram os chás na soleira da porta, os afagos meio a contragosto nos vira-latinhas e tudo mais. Um dia a tia Júlia apareceu lá em casa de aliança no dedo. Na mão esquerda. Disse que noivar é pra quem tem tempo.
Acabei de voltar da casa dos dois. Meus avós já são falecidos e sinto muito a falta deles. A Tia Júlia cumpre pra mim este papel que só os velhos da família podem manter: o sentido de permanência. Antônio estava no mercado, voltaria mais tarde. Ela me mostrou a casa que sempre morou com ar de novidade. Eles decidiram que o noivo se mudaria para lá. E ele foi com alguns móveis, quadros, toalhas e roupas. A casa da tia Júlia agora tinha nos seus cômodos o cheiro de um homem ainda estranho para mim. E certamente nem tão conhecido para ela. Ela abriu a gaveta de um criado mudo e me mostrou um porta retrato de uma moça bonita. Era a falecida do Antônio.
- Nesta idade, se tem uma coisa que a gente aprende é dividir…
- Dividir o espaço, tia? – minha pergunta trazia uma certeza de ingenuidade.
- Não. Dividir o amor. O Antônio ainda ama a mulher dele. E eu não esqueço do seu tio um só dia. Nós dois sabemos disso e não falamos nada. Aqui são quatro pessoas que se amam. E duas que querem se amar.
Eu admiro este amor dos velhos. Eles são marginais, vão na contramão do que nós tentamos respeitar a vida inteira. Eles decidem quem vão colocar pra dentro do seu respeito e o coração que trate de se acostumar com as novas diretrizes. Uma contravenção em nome da felicidade. Foi isso o que minha tia fez ao respeitar a imagem viva da morta em seu leito. O cheiro do meu tio ainda estava nos armários, no colchão. E os cachorros do Antônio se misturam no quintal. Logo ele chegaria trazendo pão do mercado e ajudando tia Júlia a montar a mesa do café para mim, o neto postiço que está aprendendo mai s uma: o amor que bateu a vida inteira na gente com essas manias de gostar errado, também merece levar uma invertida.
Luiz Andrioli
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julho 27th, 2011
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